terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Moralândia – roteiro / sugestão para um agit-prop

 Moralândia – roteiro / sugestão para um agit-prop

 


Moralândia: Lugar estranho com gente esquisita.

 


Bertolt Brecht, sobre determinados juízes:

“Muitos juízes são absolutamente incorruptíveis; ninguém consegue induzi-los a fazer justiça.”

 

Estamos em Moralândia, capital de Lisarb, onde “as instituições funcionam normalmente”.

Após um golpe de Estado patrocinado pelos ricos, militares, poder judiciário, parlamentares e mídia partidarizada, subordinados aos interesses estrangeiros, chegamos, finalmente, à Nova Era. Nesta, reina o Rei Mierdas, que tudo o que toca vira algo homônimo a seu nome.

Na Nova Era, fala-se muito em patriotismo. No entanto, um observador atento repara que isso é apenas para ludibriar habitantes incautos, já que a prática é de um patriotismo peculiar, o do patriota do estrangeiro que entrega as riquezas nacionais às grandes potências mundiais.

Também espantam outras condutas, como o ódio às ciências e ao conhecimento em geral, além de vigorar um negacionismo medieval.

O mundo foi acometido por uma doença extremamente grave no ano passado. Entretanto, o governo de Moralândia nega a existência da pandemia que já infectou 7 milhões e matou aproximadamente 200 mil pessoas do local, afirmando tratar-se de coisa sem importância e de invenção de opositores associados a alienígenas contrários aos feitos da Redentora, o regime civil-militar que perdurou por 21 anos e o Rei Mierdas prometera em campanha reeditá-lo.

Como se não bastasse, a Corte de apaniguados acompanha o Rei em sua propaganda contra vacinas, tidas como invenção diabólica para tirar a liberdade das pessoas por meio de uma lavagem cerebral contida em suas fórmulas demoníacas.

Foram revogadas a Teoria da Evolução, a Lei da gravidade e demais teorias científicas, apresentadas como influências negativas de Marte, o planeta vermelho. Bem como acabou-se, segundo as autoridades, com a pouca vergonha de livros cheios de palavras e sem ilustrações.

Em suas pregações, os promotores da Nova Era, liderados por um astrólogo espertalhão, afirmam, sem provas, que “a Terra é plana”. E encontram pessoas crédulas para aceitarem essa e outras “infinitas verdades sagradas”.

Os habitantes de Moralândia têm esses e demais comportamentos estranhos, causando surpresa aos visitantes de outros países. Estes notaram que a população do lugar está submetida a programações narcotizantes nas mídias sociais e demais mídias monopolizadas que protegem, conjuntamente com o judiciário, o clã mierdiano de quaisquer investigações sobre seus negócios de empreendimentos e assessorias tocados pelo Escritório do Crime, tais como as atividades beneméritas a que se devotam os autodenominados “cidadãos de bem” milicianos, a saber: extorsão, tortura, assassinato, além de ser incumbido de emitir relatórios sobre professores, jornalistas e artistas dissidentes. Segundo os donos de poder, o referido Escritório é uma “organização edificante, ilibada e exemplar”.

Mesmo com a notória intolerância a dissidentes, em toda o território começa a crescer o repúdio às atrocidades e ao caos impostos pelo (des)governo do Rei Mierdas, responsáveis pela expansão do desemprego e da miséria que se alargam velozmente.

Como a crise se intensifica, a classe dominante de Moralândia e sua mídia venal, que enganaram a população com a ideia de “uma escolha muito difícil” durante a campanha eleitoral, na qual o favorito foi impedido de participar, se dizem surpresas com “o despreparo e a incompetência do Rei Mierdas”, apesar de conhecerem a falta de credenciais do elemento há mais de trinta anos.

Em vielas e becos, aparecem moralandenses arrependidos de abraçarem cegamente o fanatismo e choramingam pelo que denominam “traições cometidas pelo Rei Mierdas”.

O estudo de História seria suficiente para não afundar Lisarb nessa gravíssima crise. Entretanto, há pouco tempo a História, a política e a tolerância à diversidade foram desprezadas na região, principalmente pelas hordas fanatizadas de milicianos merdianos.

Daqui a dois anos ocorrerá novo embate político-eleitoral entre as forças do Rei Mierdas e seus opositores. Diante do fiasco do governo para enfrentar os reais problemas do país, antigos apoiadores do monarca procuram se distanciar em busca de uma saída. Mas muitos acreditam que, havendo a repetição do quadro da disputa anterior, esses mesmos voltarão a apoiar o Rei Mierdas, com o qual têm os mesmos propósitos político-econômicos, ou seja, entregar na bacia das almas as riquezas às potencias estrangeiras e continuar a subtrair direitos sociais e trabalhistas, tornando ainda mais barata a já irrisória remuneração daqueles que ainda conseguem alguma colocação, em geral no mercado informal.

Por outro lado, os opositores de fato procuram se organizar melhor para o enfrentamento próximo.

 

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