quinta-feira, 31 de julho de 2014

Professores da USP enviam Carta aberta ao Professor José Eduardo Krieger, Pró-Reitor de Pesquisa da Universidade de São Paulo




Professores da USP enviam Carta aberta ao Professor José Eduardo Krieger,
Pró-Reitor de Pesquisa da Universidade de São Paulo

 



O texto abaixo, elaborado por diversos professores da USP, foi aprovado pela assembleia de docentes realizada na segunda-feira,  dia 28 de julho, e enviado à Pró-Reitoria de Pesquisa, bem como divulgado para a Universidade:



Carta aberta ao Professor José Eduardo Krieger
Pró-Reitor de Pesquisa da Universidade de São Paulo


Senhor Professor,

Em 27 de junho de 2014 o senhor enviou à comunidade universitária uspiana mensagem eletrônica que reproduzia uma entrevista concedida por Simon Schwartzman à revista Época:
Da parte dos docentes, a imensa maioria dos destinatários de seu e-mail é constituída, como bem sabe, por doutores. Dentre eles há um grande número de pesquisadores com pós-doutorado, mormente realizado em instituições de prestígio internacional. Trata-se portanto de um corpo docente altamente qualificado, que sabe onde buscar informações confiáveis sobre os mais diversos temas, entre eles o relativo às políticas públicas para o ensino superior. E, quando o faz, o arquivo do semanário das Organizações Globo não será certamente a fonte preferencial para sua investigação. Tampouco um estudante de graduação encontraria aí os elementos necessários para formar uma opinião cientificamente abalizada. Por que, perguntamos, a Pró-Reitoria de Pesquisa, órgão que deveria zelar pela qualidade da investigação acadêmica, divulga um texto que prima pelo viés ideológico da mercantilização do ensino público, pela ofensa ao trabalho realizado numa de nossas unidades, além de pregar a ruptura do regime de dedicação integral e exclusiva, mola-mestra da pesquisa realizada na Universidade de São Paulo?
Na entrevista que o senhor difundiu, Simon Schwartzman advoga para as autoridades universitárias a “liberdade” para pagar o salário que quiser e para quem quiser, além de poder dispensar “quem não é tão talentoso assim.” Isonomia salarial, critérios uniformes e democráticos de seleção de quadros, estabilidade para que o pesquisador possa exercer suas atividades de modo autônomo e não sujeito a pressões externas, tudo isso é totalmente descartado na perspectiva do sociólogo que presidiu o IBGE no auge de seu desmonte, durante a década de 1990. Aliás, para um acadêmico com as credenciais que Schwartzman procura ostentar, não fica bem tratar os números de maneira tão leviana. Para a revista Época, diz ele textualmente que as universidades públicas paulistas recebem “quase 10% dos impostos arrecadados no Estado mais rico do país.” O senhor, professor, há de concordar que 9,57% não correspondem exatamente a “quase 10%”, sobretudo quando os quase 0,43% dessa diferença referem-se a um montante que orça pela casa dos bilhões. Na realidade, do total dos impostos arrecadados pelo Estado de São Paulo, USP, Unesp e Unicamp recebem cerca de 6,4%. Os “quase 10%” ficam por conta da ignorância ou da má fé do entrevistado.
Causa-nos perplexidade e consternação o fato de o senhor, além de endossar tamanha inépcia, acolher e divulgar a agressão gratuita e absolutamente despropositada que Schwartzman fez à EACH. A unidade, vítima do descaso e da ação criminosa de certos dirigentes universitários, é tratada na entrevista como equívoco a ser extirpado da USP. Na entrevista, o expert em privatização das universidades públicas diz que o campus da Zona Leste é “uma tentativa ruim de investir em ensino técnico.” Caro professor, pode o senhor imaginar o sentimento de nossos colegas docentes da EACH quando leram essa barbaridade que o senhor com toda pressa tratou de disseminar? Desde quando os cursos administrados na EACH reduzem-se a ensino técnico? Schwartzman fala daquilo que não sabe, e sua agressão, lamentavelmente, é reproduzida na USP pela autoridade que devia cuidar da reputação de suas unidades de ensino e pesquisa. 
Para encerrar, gostaríamos de lembrá-lo de que o uso do correio eletrônico institucional é pautado por normas que o senhor tem o dever de observar. De acordo com a resolução 03 da Comissão Central de Informática da USP, aprovada em março de 2002,  que dispõe sobre a difusão de e-mails para o quadro docente e funcional, “A mensagem deve ter interesse institucional e seu conteúdo ser relevante para grande parte do corpo docente e/ou dos funcionários não docentes” (Artigo 1º). Que interesse institucional reside na opinião desinformada e tendenciosa expressa na entrevista? Talvez tenha sido o afã de logo difundir o texto o motivo que levou a pró-reitoria a ignorar também a norma estabelecida pelo parágrafo 2 do artigo 7º da resolução: “Em todas as mensagens enviadas usando os arquivos referidos neste artigo, deverá haver um texto final indicando ao destinatário como ele poderá solicitar a retirada de seu nome da lista.” Portanto, além de alardear informação destituída de real interesse, o envio do e-mail incorreu no cerceamento da liberdade dos membros da comunidade uspiana para escolher e acolher tão somente as mensagens que julguem relevantes. Trata-se, como se vê, de flagrante abuso na utilização dos meios oficiais de comunicação da universidade.
Esperamos que o senhor e sua equipe passem doravante a prestar maior atenção aos reclamos da comunidade acadêmica por um real comprometimento da Pró-Reitoria de Pesquisa com a luta pela universidade pública e democrática.

Saudações universitárias,

São Paulo, 28 de julho de 2014
Docentes da USP reunidos em assembleia
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terça-feira, 29 de julho de 2014

Universidades públicas brasileiras: desmonte em andamento. Por Maria Sílvia Betti




Universidades públicas brasileiras:
desmonte em andamento
 Por Maria Sílvia Betti


  1. a naturalização e a internalização generalizada  do pensamento produtivista
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  1. a naturalização e a internalização generalizada  do pensamento produtivista
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A lógica do publicar ou perecer

 
Em pouco tempo, os critérios assim instituídos passaram a nortear as linhas de pesquisa acadêmica em todos os campos do saber e em todas as áreas da universidade, cobrindo de forma irrestrita as áreas de ciências exatas, biológicas e humanas.  
21/07/2014


Publish or perish – quem  se der ao trabalho de lançar a expressão “publish or perish” no campo de buscas do Google chegará, entre outras referências, a um verbete da Wikipedia, precedido pela seguinte advertência: 

The examples and perspective in this article deal primarily with the United States and do not represent a worldwide view of the subject (acessado em http://en.wikipedia.org/wiki/Publish_or_perish).



Mesmo em 2010, data da elaboração do verbete, a lógica inerente ao “publish or perish” norte-americano já estava, há pelo menos duas décadas, constituída no principal parâmetro de avaliação do mérito da pesquisa no Brasil. Seus pressupostos são  ainda e foram, desde o início, os seguintes:  o pesquisador deve escrever artigos, apresentar trabalhos em congressos e organizar eventos relacionados à pesquisa realizada ou em andamento. Esses artigos, “papers” e eventos constituiriam evidências do trabalho do pesquisador e assim forneceriam elementos para a avaliação do mérito da pesquisa.

No âmbito das agências de fomento, e principalmente no âmbito da CAPES, esses artigos, “papers”, eventos, etc. passaram a ser designados como “produtos” e “resultados”, conceitos não casualmente comuns aos vigentes no âmbito do trabalho industrial e em série. Quanto mais numerosos fossem, mais significativa  seria  considerada a “produção” do docente ou pesquisador, e também dos Programas de Pós Graduação, e maior a  possibilidade de obtenção de recursos de pesquisa por parte das agências de fomento.

Com a capilarização e a internalização dessa lógica em todos os setores do trabalho docente na universidade, um número crescente de revistas, periódicos e eventos foi se multiplicando, o que acabou fazendo que outros vetores de avaliação fossem incorporados aos quantitativos: os artigos passaram a ser mais bem avaliados se publicados em revistas ou periódicos dotados de política editorial seletiva e de âmbito internacional, e os eventos passaram a sê-lo na medida em que comprovassem a existência de interlocução acadêmica com universidades estrangeiras.

Um sistema de indexação foi desenvolvido para a inserção e submissão desses dados às instâncias avaliadoras, e plataformas digitais foram desenvolvidas para que os dados correspondentes fossem lançados e pudessem ser indexados. Vários níveis de indexação passaram a atestar, com base nelas, a “qualidade” dos “produtos” e “resultados”. As próprias chamadas para publicação em revistas acadêmicas “bem indexadas” passaram a anunciar com destaque a indexação atingida.

Os procedimentos técnicos para a inserção desses dados por programa de pós passaram a demandar o fornecimento de informações técnico-quantitativas cada vez mais detalhadas. Deixar de atendê-las ou fazê-lo de forma tida como incompleta passou a representar, em termos concretos, incorrer no risco de ter uma “produção” considerada não meritória ou insuficiente, o que, por sua vez, passou a implicar o risco de rebaixamento do nível de avaliação desse programa e, consequentemente, de sua captação de recursos para bolsas e eventos. 

Rapidamente disseminou-se a ideia de que o atendimento estrito a todas essas normas era uma questão de “interesse social”, já que tanto o Programa como seus pós-graduandos dependiam desses recursos para a realização plena de seus estudos e pesquisas.

Em pouco tempo, os critérios assim instituídos passaram a nortear as linhas de pesquisa acadêmica em todos os campos do saber e em todas as áreas da universidade, cobrindo de forma irrestrita as áreas de ciências exatas, biológicas e humanas.  

Ao cabo de alguns anos esses critérios passaram a ser incorporados e levados em consideração  também no âmbito das provas de títulos em concursos para a seleção de docentes em universidades públicas.



Implicações do publish or perish

  1. a naturalização e a internalização generalizada  do pensamento produtivista, apoiado na  avaliação quantitativa, e dos critérios  técnicos de indexação, apoiados na ideia de que a  “qualidade”  ou excelência  tem relação direta com o alcance da circulação editorial, com o status comercial das editoras envolvidas  e com o grau de internacionalização atingido e comprovado pelos  Programas de Pós e seus  pesquisadores;
  1. a generalização da ideia de que, quanto mais auxílios tiverem sido captados por um docente ou pesquisador, tanto maior será a qualidade e a relevância de seus estudos. Não casualmente essa lógica  é análoga à vigente no âmbito do crédito bancário: quem tem mais, será mais bem qualificado para pleitear. Quem tem menos, será visto como menos qualificado e terá menos chances.
  1. a inversão das motivações de interesse de pesquisa por parte de orientadores e de pós-graduandos: muitos procuram escolher assuntos de pesquisa condizentes com  resultados que venham a ser considerados expressivos pela lógica das agências avaliadoras e  formatam seus projetos com base naquilo que, presumivelmente, terá maiores chances de receber recursos;
  1. a implantação dos conceitos de “visibilidade” e de “internacionalização” como parâmetros para a comprovação da relevância da pesquisa;
  1. a implantação de uma lógica elitista e excludente no âmbito dos Programas de Pós e dos concursos de seleção de docentes em universidades públicas. Os pós-graduandos deverão dispor de condições materiais  de  sobreviver com o valor mensal das bolsas de estudos,  ou terão que se dividir entre o trabalho assalariado em tempo integral e os estudos, já que as agências exigem a comprovação da inexistência de qualquer vínculo trabalhista paralelo à pesquisa durante o período de vigência do auxílio. Os docentes que não construírem, por meio de seu trajeto de docência e pesquisa, um histórico expressivo sob o ponto de vista da quantificação de seus “produtos” e da “qualidade” deles, tecnicamente aferida por meio das plataformas de indexação, serão considerados menos merecedores;
  1. o sistema de vida, trabalho e pensamento que assim se dissemina é adverso à pesquisa continuada, analítica e reflexiva.
  1. A Universidade pública, impregnada em todos os seus setores dos preceitos inerentes a esta lógica produtivista, passa a comportar-se de forma idêntica à das instituições do setor privado, demonstrando assim ter aberto mão daquilo que, supostamente, a diferenciava, ou seja,  a possibilidade da realização da pesquisa continuada, orientada pelo interesse social de seu objeto.
  1. No momento em que estas linhas estão sendo escritas, a situação  das três universidades públicas do Estado de São Paulo indica que atingimos o último estágio  da erosão intelectual e humana desencadeada por esse sistema: o grau máximo do desmonte, já em grande parte consumado e irreversível, do caráter público e socialmente relevante da pesquisa, enunciado no  argumento do Reitor  Zago, da USP, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo,  ao referir-se  ao  regime de dedicação integral à docência e à pesquisa como sendo uma “jabuticaba brasileira”. Em alguns anos  -  não muitos, pelo ritmo dos acontecimentos  -  as universidades públicas terão sido privatizadas  e a pesquisa propriamente dita já não terá como sobreviver em sua instância crítica e pensante,  em solo tão hostil.

Maria Sílvia Betti é professora do Departamento de Letras Modernas da FFLCH/USP.

Terça-feira, 29 de julho de 2014





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