domingo, 17 de novembro de 2013

O que é, como e para quê ser de esquerda (II) - Por Flávio Aguiar




O que é, como e para quê ser de esquerda (II)

Por Flávio Aguiar


A utopia messiânica implica em se ver a história da humanidade como chegando a um ponto ômega, final, onde este se transforma em alfa, inicial.

 Flávio Aguiar


Conheço o vento
Pelo canto donde sopra
Ditado popular


Uma das falácias que tomou conta de muito pensamento pela esquerda foi a de que como o socialismo fosse “científico”, ela prescindia de uma curvatura utópica, e até a ela se opusesse.

“Científico”, neste contexto em que surgiu, implicava a ideia de previsibilidade e pré-determinação: estávamos fadados, condenados à vitória.

Este mesmo era um pensamento utópico: tão utópico, que acabou por adquirir uma curvatura messiânica, e figuras com caráter de “messias” chegaram a ocupar o proscênio da esquerda mundial. Stalin foi o maior destes “messias”, encarnando até o princípio de que momentaneamente apenas seu país mereceria o paraíso comunista; os outros deveriam permanecer ou até mesmo conquistar (como era o caso de boa parte do pensamento de esquerda no Brasil) o purgatório burguês e capitalista, “etapa” necessária para que pudessem se aperfeiçoar e ajudar o paraíso distante a se aperfeiçoar ainda mais.

Stalin foi um messias mundial; mas os houve também em menor escala: regionais, nacionais, até paroquiais. Hoje em dia é até fácil, no entanto, apontar-lhe o dedo e culpá-lo por tudo, pelo gigantesco desvio que foi o seu império (czariato?). É um pouco mais difícil procurar discernir o que de pensamento messiânico poderia estar embutido no DNA daquele cientificismo socialista.

Não que ela fosse inevitável, a curvatura messiânica. Hoje sabemos que nada é inevitável, nem mesmo aquela  propalada vitória final. Mas é possível discernir também a ideia de que uma utopia de curvatura messiânica implica a possibilidade de uma outra curvatura, a da ética, de dimensões incalculáveis.

A utopia messiânica implica em se ver a história da humanidade como chegando a um ponto ômega, final, onde este se transforma em alfa, inicial: o mundo recomeça, a história recomeça do zero, livre das cicatrizes do passado, o homem novo e nascituro redime as feridas superadas. O corolário desta forma de pensar é que para chegar a este ponto alfômega, tudo é permitido, pois tudo será perdoado e redimido. Daí a se enfiar uma picareta na cabeça do adversário mais próximo é um pequeno passo, especialmente se este adversário de hoje for o aliado de ontem. Não precisa ser uma picareta de ferro: pode ser a da desqualificação, até a da calúnia se necessário for. Até porque, continuando pelas rotas dos corolários, somente eu, o meu grupo, o meu pensamento, a minha visão ensurdecedora do futuro rutilante é que encarnamos a verdade: esta é que é a verdade.

Um aspecto terrível (há vários) desta visão ofuscante é que ela ofusca a análise do presente – do real. Nós – apenas nós – dominamos a inteligibilidade da história; em nome disto podemos prescindir do diálogo com a multiplicidade do real para perceber o que está de fato acontecendo. É como se pudéssemos navegar apenas olhando as estrelas – sem prestar atenção ao movimento das ondas, das correntes, à direção do vento. Podemos até fazer uma transposição cibernética desta metáfora marítima: só cabe na sensação/percepção  do real  aquilo que possa  ser recriado como objeto do meu programa de navegação. O resto deve ser deletado, pois só cria ruído no aparato.

Há um exemplo histórico de como isto funciona. Em 1954 havia uma campanha gigantesca de direita, através da mídia, para derrubar Getúlio Vargas. Não porque ele tivesse sido ou fosse autoritário, ditador, etc., embora se mobilizassem tais argumentos; na verdade porque ele se tornara definitivamente um “populista”. Grande parte da esquerda (comunista, trotskista e socialista) comprou esta visão e tais argumentos, embalada por um sentimento (de raiz messiânica) de  que naquela altura era necessário afastar o “messias errado” do caminho, para que este ficasse desimpedido.

Em 24 de agosto estas esquerdas foram duplamente surpreendidas. Primeiro, como todo mundo, pela notícia do suicídio do presidente, que ninguém esperava, nem mesmo seus correligionários mais próximos. Segundo, porque o que se viu foi a emergência de uma massa enfurecida depredando as sedes dos partidos de direita, os jornais a seu serviço, e até mesmo sedes de partidos de esquerda, que faziam oposição ao presidente. Houve dois movimentos rápidos: na hora, em alguns pontos do país, líderes de esquerda tentaram por-se à frente do povão insurreto, nem que fosse para tentar impedir a depredação das suas sedes partidárias.

Num outro movimento, criou-se a legenda para tal quadro de que “a massa que saía à rua para comemorar a queda de Getúlio, ao saber do suicídio, mudou de temperamento”. Esta legenda,  embalada tanto pela retórica liberal de direita de então, quanto pela retórica de esquerda que ia na sua onda, apenas reafirmava o caráter volúvel, quase bestial, imprestável para a política a menos se for acabrestada por alguma liderança ou vanguarda providencial, das “massas populares”.

Reconstituindo-se os fatos, pode-se perceber que não havia “massa saindo à rua para comemorar”.  O que tirou o povão das casas ou do trabalho foi a leitura repetida da carta Testamento no Repórter Esso e outros radiojornais do país.

Confundiu-se o alarido da imprensa reacionária, capitaneada por Carlos Lacerda, com uma fantasmagórica “opinião pública”. E a esquerda em grande parte embarcou na maionese.   A visão ofuscante da própria constelação de idéias impediu a análise do real. Parte da esquerda tornou-se a messias de si mesma, iludindo-se que açambarcava a história em seu aprisco, achando que interpretava inclusive o discurso da direita, quando na verdade estava sendo devidamente instrumentada por ele.

Porém tais considerações não são feitas para desestimular os pensamentos ou as práxis das esquerdas. Pelo contrário: seu objetivo é estimular uma forma de pensamento e práxis em que se mantenha um rigoroso mas delicado equilíbrio entre visão utópica, indispensável para a ação, e análise do real presente, o que é uma ação igualmente indispensável. Mas para manter este equilíbrio não basta subsumir os discursos alheios no próprio: é necessário escutá-los e com eles dialogar. Com rigor, com veemência, com combatividade, com princípios, mas dialogar, pois o diálogo também é um princípio que as esquerdas não podem perder de vista.

Voltaremos ao assunto.



Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Coluna/O-que-e-como-e-para-que-ser-de-esquerda-II-/29381


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