quinta-feira, 30 de junho de 2011

Crise de identidade ou de memória?



Crise de identidade ou de memória?


Réquiem para uma triste figura


Assinei sigilo eterno. Mas não sabia.
Assumi filho de outro. Também não sabia.
Afirmei coisas que desconhecia. Isso eu sabia.
Prometi o que não poderia fazer. Isso eu também sabia.

Pedi para esquecerem o que escrevi. Olvidaram-me.
Dei entrevistas inéditas. E assim permaneceram.
Falei de ilustração. Não encontraram brilho.
Fiz esforços hercúleos para aparecer. Relegaram-me ao ostracismo.

Mergulhei em meus pensamentos. Poucos cogitam sobre minha existência.
Trabalhei duro para entregar o Brasil melhor do que recebi. O povo ingrato não concordou.
Disse que ia abater a dívida pública com as privatizações. Acusam-me de ter entregado o patrimônio público na bacia das almas e ainda decuplicado a dívida interna.

Os fracassomaníacos inempregáveis querem retirar minha glória. Chamam-me de “inglório”.
Tomei as doutas decisões. A ralé assevera que entreguei o país.
No meu tempo as coisas funcionavam. Os incrédulos perguntam: para quem?

Às vésperas de minha despedida, não recebo carinhos. Apenas bajulações profissionais dos poucos que ficaram imaginando poder receber alguma réstia de meu prestígio.
Tolos me rodeiam e asseguram que sou o maior.
Pergunto-me sobre as ironias da vida e a própria me responde que é assim mesmo. “Altos e baixos”, acrescentando com crueldade, “e agora, tão baixo, que apenas os sacripantas poderão ainda lembrar-lhe de algum momento diverso desse crepúsculo”.

Acabei de perceber algo recentemente.
Olhando para o espelho, revirei os olhos em busca do sujeito que aspirei ser.
Nem mesmo a mais remota similitude pude vislumbrar.
Franzi ainda mais a testa marcada pelos anos e disparei a interrogação que borbulhava em minha mente de forma inquieta.
Como o povo vai me reconhecer se nem eu, no meu adeus, consigo me dar conta de quem eu sou?

Um comentário:

  1. Afinal a culpa é dos ignorantes que não souberam entender tamanha grandeza rsrsrs

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