quinta-feira, 5 de maio de 2011

Os mitos morrem

Os mitos morrem





As viagens marítimas não encontraram monstros nem seres fabulosos onde os mitos afirmavam a existência perigosa deles.
­­­­Pensaram os viajantes: “Podemos levar nossas embarcações para mais longe!”
O mundo começou a ficar pequeno para atender a curiosidade humana.
E a temperatura? Fria, quente? Por quê?
Observar a frequência das estações demonstrou que a natureza operava com regularidade, e não por fúria divina, como somos ensinados pela mitologia de Zeus empunhando um raio e arremessando-o em direção aos mortais descumpridores de deveres impostos pelo Olimpo.
Os escravos gregos estavam na condição determinada pelos deuses, não pelos seus senhores, definiam os mitos convenientes à elite aristocrática, ciosa de descansar enquanto engabelavam os escravos com suas providenciais narrativas.
“A Terra é plana e navegar para suas extremidades conduzirá aos abismos!”, alertava a santa madre Igreja, com seus ensinamentos medievais.
Novamente, os navegadores resolveram fazer ouvidos moucos e enfrentaram o desconhecido.
A carnificina implantada pela civilização europeia dizimou povos e culturas em nome de um paradigma.
Varreram-se hábitos e tradições seculares dizimadas em nome do “progresso”.
Desencantado o mundo novamente, tivemos que buscar novas respostas.
“Não se pode fazer autópsia!”, sentenciava a Igreja, “pois se Deus quisesse permitir aos humanos observar o interior do corpo, nos teria criado transparentes”. E a medicina precisou ser exercida clandestinamente para não paralisar as pesquisas possibilitadoras de curas.
Galileu quase virou churrasco por suas conclusões sacrílegas a respeito do movimento da Terra, tida como imóvel pelo Clero, como determinavam os gregos antigos com suas ideias de perfeição do que não se movimentava e não se desgastava.
Em virtude de fogueiras que procuravam matar não só as bruxas, mas a curiosidade humana, o pensamento mitológico, enraizado na ignorância e frutificando arrogância por todos os lados, buscava o fim do mundo a cada milênio. Talvez imaginando afugentar o desejo de conhecimento e impedir a produção de novas formas de interpretação da realidade conflitantes com os dogmas estabelecidos como sagrados.
Modernamente, destituídos do CEP-Código de Endereçamento Postal do Olimpo, os prestidigitadores mágicos estão presentes em diversas arenas e, ironicamente, se servem da tecnologia para amplificar noções antiquadas e infantis.
É verdade que os adeptos das porções milagrosas não acabaram e são clientes devotos dos pregadores de bálsamos de placebos. Cada um se alimenta com o que quer e, principalmente, com o que pode.
Os porta-vozes piguianos, com gráficos em “PowerPoint”!, aparentemente construídos com base científica, mistificam e tagarelam, em aparelhos de alta definição, as profecias do mercado, entidade fantasmagórica que assombra a vida dos contemporâneos com previsões catastróficas caso não obedeçamos as ordens emanadas do deus-Capital.
Com suas sete cabeças, a inflação irá devorar os ímpios que recusarem a genuflexão da alta de juros. Obediente, o Banco Central, “impotente”, cumpre a sentença “irrecusável”. Não importa que 20.000 famílias de rentistas venham a sorver por mês, apenas a título de juros, o orçamento anual de 14,5 milhões de famílias que recebem o “perdulário” Bolsa-família.
A Bolsa-banqueiro é sagrada e o PIG reza a cartilha para lembrar qual deve ser o bom comportamento das autoridades monetárias. Caso contrário, o mundo vai acabar e os céus, incendiados pela fúria celestial, consumirão a vida no planeta.
Temerosos do infortúnio, os fiéis marcham aceleradamente para cumprir os desígnios.
Cabe aos questionadores “indisciplinados” a tarefa de sempre: contestar o “status quo”, evidenciando seus interesses e truques, suas trapaças e transgressões aos direitos da maioria.

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