quarta-feira, 11 de maio de 2011

Mistério





Mistério





A régua media as mentiras e as desavenças entre eles.
Ensurdecedores, os gritos rompiam as paredes e invadiam as casas vizinhas.
Eram públicas e notórias as intermináveis discussões.

As versões se multiplicavam.
Os acréscimos se avolumavam.
E a história parecia cada vez mais inverossímil.

Quando saiam, exibiam bons modos e afabilidades.
A mise en scène, “inconvincente”, segundo Dona Margarida, mostrava o casal canastrão.
“Desfilando satisfações para os outros!”, concluiu Dona Tereza.

O retorno, também, era ensaiado.
A ribalta acendia e a cena se desdobrava para a audiência.
As futricas recomeçavam.

O rosnar do cão do senhor Alfredo era a senha para o diz-que-diz percorrer o quarteirão.
As novelas eram abandonadas por instantes para dar lugar ao afamado par.
Tão perto e tão longe.

Mas um dia as coisas não se repetiram.
Os dois, aparentemente, não se fizeram ouvir pelos arredores.
A estranheza tomou conta das conversas.

O assunto, indisponível, não fornecia motivo sobre o novo comportamento.
Uma semana. E nada.
Que terá acontecido?

As especulações aumentavam.
“Duplo suicídio!”, asseverou Dona Carminha.
“Jamais! Primeiro ele a matou depois deu cabo da própria existência infeliz!”, pontificou José.

Duas semanas. Mistério não desvendado.
A imobiliária põe placa de “vende-se”.
O alívio toma conta do bairro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário