quinta-feira, 19 de maio de 2011

Desrespeito



Desrespeito


Pedante





As expectativas de Paulo eram demasiadas.

Insultara inúmeras vezes Juliana.

A moça, apesar de normalmente submissa, endereçou-lhe olhar desafiador.

Jamais se pronunciara daquela maneira.



Como sempre, Paulo imaginava que tudo estava tranquilo.

Ela chegaria com uma hora de antecedência e rogaria perdão.

Em seguida, com ar de desprezo, ele a consolaria, dizendo ser a última vez.

Tudo desenhado em sua mente, atrasar-se-ia mais do que o habitual.



Mas algo se modificara em relação à última discussão.

Juliana não estava lá uma hora antes.

Ao contrário, Paulo se antecipara. Em uma hora.

Ofegante, olhou para o relógio e se acalmou.



Passaram duas horas e dela nenhum sinal.

Ele, preocupado, rodava em círculos.

Mirava o relógio furiosamente.

E aprontava em sua cabeça o sermão.



— Ela vai me pagar! — disse ele.

Que ligara mil vezes para todos os números de telefone dela.

A bateria do celular se esgotara.

E ele próprio desmoronava de sua arrogância.



Enfadado, entrou no boteco mais próximo e pediu um PF.

Engoliu a gororoba sem sequer saber o que comera.

Seu ódio o consumia.

E pensava apenas em devolver a "desfeita".



Chegando em casa, ansioso, apertou o botão da secretária eletrônica.

Nenhuma mensagem importante.

Apenas o recado de uma funerária, via telemarketing.

— Descanse em paz e deixe sua família feliz! —, afirmava a voz entusiasmada.



Por um momento chegou a cogitar ser uma boa ideia.

Afinal, em toda sua vida, era a primeira vez que lhe ocorrera essa “desdita”.

— Totalmente imotivada! —, vociferava comendo sua goiabada misturada com guaraná.

De mau jeito, adormecera no chão da sala.



No dia seguinte, acertaria as pendências com Juliana.

— Ela me paga... Essa bandida!

Nem o aceno insistente de um amigo comum lhe retirava de seu desejo de vingança.

O sujeito, decididamente, não estava para conversa.



Chegando ao apartamento de Juliana, o porteiro, de cara fechada, passou a notícia.

Um bilhete. Com duas palavras.

Incrédulo, releu o pequeno papel  e as escassas palavras por horas.

A polícia foi chamada, pois Paulo dificultava a passagem de moradores e visitantes.



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