segunda-feira, 23 de maio de 2011

Despertador ou a falta de amor





Despertador ou a falta de amor




O exibicionista faz seu show diário.
Toca com estridência.
Dispara seu ensurdecedor alarme
Ordenando para eu sair do conforto da cama.

Procuro enganá-lo.
Viro-me de lado
Como quem não quer nada
E desfruto de mais uma soneca matinal.

Mas o insolente não perdoa.
Exalta-se e fura meus tímpanos
Com sua música indelicada e desafinada.
Despreza minhas zangas e insiste com sua sirene.

Abafo o som maldito com o travesseiro e o cobertor.
Porém, o impertinente parece ter aumentado o volume.
Agora, entendo que é o momento de pôr o plano em prática.
Salto de meu aconchego, empunho o martelo e mando para o inferno esse objeto irritante.

Uma, duas, três, cem marteladas
E todas as demais de que já não me recordo.
Ansioso como um vencedor que vai receber o troféu,
Pisoteando os destroços do inimigo, gargalho numa altura inédita.

No entanto, para minha surpresa,
A coisa em mil pedaços toca outra vez
E não é só isso.
Ela começa a falar e me intima bruscamente.

Quer satisfações sobre meu comportamento intempestivo.
Não aceita meias-desculpas.
Expressa reprovação resoluta a respeito de minha atitude “infantil!”
E exige que tal fato não se repita.

Sem acreditar, protesto sobre o tom ofensivo.
Entretanto, o despertador resmunga estar cumprindo sua obrigação.
Eu o demito e mando calar-se
Para sempre.

Minha altivez o fez compreender quem é o chefe.
Viro para o outro lado, puxo a coberta e vou para os braços de Orfeu.
Meus lindos sonhos contrastarão com as manhãs de pouco sono
Que esse inservível me subtraia.

Todavia, o energúmeno volta a se rebelar.
E sua loucura o faz berrar, sem interrupções,
Que é o momento de eu ter compostura
E sair da cama sem delongas.

Incrédulo, e com o martelo em minhas mãos,
Estou pronto para a vingança que todos gostariam de desfrutar
Destroço a alma penada em milhões de pedaços
Para não restar dúvidas de quem está no comando.

Porém, percebo meus ombros serem chacoalhados bruscamente,
E uma voz ao fundo dizendo: “Acorda, Roberto!”.
Depois de mil vezes a ouvir o chamado, arregalo os olhos e percebo a cena insólita.
O despertador continua a tocar.

E minha esposa, exangue e ensanguentada,
Com mil ferimentos pelo corpo inteiro,
Suplica para que eu levante
E pare de golpeá-la com o martelo.

Desorientado, largo subitamente o martelo e observo a cena.
Ouço o despertador mais uma vez.
Repouso minhas mãos para desativar o alarme e,
Calmamente, desperto para mais uma sessão com o analista.

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