quinta-feira, 28 de abril de 2011

Destino

Destino







Todos os dias é a mesma coisa.
A taquicardia começa no café da manhã.
Aumenta no caminho para o trabalho.
Explode na fila da catraca da empresa.


A fila é indiana e os semblantes desanimados.
O silêncio predomina.
Às vezes, cortado pela mesma indagação
Emitida entre a ansiedade da dúvida e o receio da certeza: “Será minha vez?”

Cada volta da roleta, a luz pisca.
José recebeu o sinal verde.
Mário também.
Luzia não teve a mesma sorte.

Sua luz foi vermelha.
Desolada, ela disse: “Que fazer? É o destino.”
E encaminhou-se para o Departamento de Pessoal
Como o boi que está no corredor do matadouro.

Gabriela fixou seus olhos marejados no sinal e passou seu crachá.
Desafiadora, encarava com altivez o carrasco luminoso.
Verde. Pode passar.
Resoluta e vitoriosa seguiu em direção a seu posto.

Camilo, beato, persignou-se três vezes,
Clamando à Virgem proteção.
Entretanto, o sinal fatídico acendeu e destruiu suas esperanças.
Os céus não lhe ouviram ou nada puderam fazer?

E assim é a rotina dessa grande empresa.
Todos os que passam pela catraca diariamente enfrentam seu “destino”.
Grande parte entende que se trata de sorte ou azar.
Nada há para fazer.

Ernesto já se deu conta de que as cores das luzes não são aleatórias.
Mas decididas no Departamento de Pessoal.
Ouve sempre que é um sujeito pessimista. De pouca fé.
E observa a degola incessante dos ingênuos otimistas.

2 comentários:

  1. Enobrecida por tua poesia, primeiro choro.
    Lamento a condição humana, sujeita às cores
    do sistema, das instituições que,
    num zás! faz os humanos se sentirem
    como se devem se sentir os bovinos e suinos
    no corredor da morte da Sadia (Sadia?)
    da Perdigáo...

    Sistema que arrasta as décadas dos humanos
    pela catraca das egrégoras que os consomem.

    Santo Trabalho.
    Agora, falta resgatar o sonho, os ideais,
    as utopias que nos completam e nos faz sentir
    o que realmente somos / espíritos experimentando
    a condição de seres humanos.

    Leio o teu poema e afundo em minhas próprias
    divagações.
    \\
    Muito obrigada pela reflexáo do dia de hoje.

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