sexta-feira, 11 de março de 2011

Texto base: “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos. E texto base: “Germinal”, de Émile Zola. Jaqueline Araújo dos Santos




Vidas secas - Graciliano Ramos




JAQUELINE ARAÚJO DOS SANTOS —

Texto base: “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos.

Dores na estrada

O sol queimava.

Impossível ver, o mundo escurecia.

— Anda peste... caminha diabo...

O vento quente do sertão ecoava ... Ôeooooo....êioaa...ôeo...

— Ô, égua maldita, vai pari na estrada? Anda peste... tem socorro não...

— Caminha

Eoê.....êioaa..... eoê...........êioaa...............

Nossa Senhora dos partos não chegou,

Não teve precisão.



Germinal - Émile Zola


JAQUELINE ARAÚJO DOS SANTOS —

Texto base: “Germinal”, de Émile Zola.


Condenação

No gélido e escuro fosso de Voreux, ouvia-se as sentenças....

— Maheu cometeu ingratidão ao chorar no momento em que recebeu seu ordenado. É condenado a descer às profundezas da vergonha e ser acorrentado pela impossibilidade de mudanças.

E os cabos rangiam inexoravelmente....

— Zacharie foi incontinente. Permitiu que perigosos larápios mentissem aos mineiros. Como cúmplice é condenado à pena de morte.

E os cabos rangiam inexoravelmente....

— Jeanlin é classificado como traidor. Recusou-se a servir seus senhores com suas destrezas de garoto vivo para acolher um subversivo. É condenado a perder toda sensibilidade humana e a viver como um animal de carga.

E os cabos rangiam inexoravelmente....

— Etienne é considerado como o mais temível dos criminosos. Apoiado em fantasias, fomentou entre os mineiros o sonho de salários justos e dignidade humana. Ainda é acusado de organizar insurreições e mobilizar trabalhadores para a luta.

PROCURA-SE VIVO OU MORTO.

E os cabos rangiam inexoravelmente....



JAQUELINE ARAÚJO DOS SANTOS —

Texto base: “Germinal”, de Émile Zola.


Desumanização = miséria, ignorância, ‘resistência a resistir’.


Émile Édouard Charles Antoine Zola (1840-1902) iniciou sua carreira literária na segunda metade do século XIX com Contos para Ninon (1864). A princípio, Zola fundamentou sua narrativa nos motes da estética romântica, mas o conhecimento de teorias positivistas e o árduo contato com Taine, Stendhal e Balzac o levaram a desenvolver a teoria do romance experimental (1). Convicto de que o homem é condicionado pelo ambiente social em que está inserido, Zola escreveu narrativas em que enfocou aspectos da sociedade e suas influências. Dentre as obras mais conhecidas temos A Fortuna dos Rougon (1871), Nana (1880), Germinal (1881).

Germinal (1881), considerada pela crítica como a obra prima do escritor, retrata em 40 capítulos a vida de mineiros que trabalham na extração de carvão na França.

A história começa com a marcha de Etienne Lantier, que após ter esbofeteado seu chefe em uma fábrica de Marchiennes, parte para Montsou em busca de emprego.

Em Montsou, Etienne conhece Boa-Morte, que sem voz ou articulação — somente com seu nome e seus “cabelos brancos e ralos, rosto achatado, de uma palidez cadavérica” (2) — denuncia a Etienne as condições de vida daqueles trabalhadores.

No entanto, o que marca fortemente o ânimo do jovem forasteiro é a imagem aterradora do fosso de Voreux, que como um “bicho maligno” expirava ferozmente “como que sofrendo com sua dolorosa digestão de carne humana” (3). O buraco negro e monstruoso nos lembra o inferno dantesco, em que pecadores são dispostos em círculos que descem ao fundo do globo terrestre. A descida às profundezas da terra faz parte do cotidiano de pobres homens, que ao contrário dos condenados da Divina Comédia (4), sofrem em vida punições dos delitos que não cometeram. E, ao invés de se disporem nos círculos da luxúria ou gula como os danados de Dante, os trabalhadores descem pelos movimentos circulares da fome e ignorância. E desta forma, privados das mínimas condições de subsistência humana, são impedidos de desenvolverem suas consciências, cuja ausência os condena ao inferno da ‘desumanização’.

A supressão de condições favoráveis para exercitar o intelecto e manifestar opinião leva os trabalhadores de Germinal a um esvaziamento de sua humanidade. Eles são conduzidos a um estado de inércia pelo trabalho que os consome e os impede de serem donos de si, isto é, que os alienam quanto indivíduos. O processo lento e contínuo de exploração a que são submetidos os transforma em pobres ‘homens-bichos’ que: não questionam, copulam ao céu aberto e se entregam às brutalidades da violência. Estes trabalhadores, acuados pelo sistema econômico que os domina, tornam-se insensibilizáveis a ponto de não lamentarem a morte de seus semelhantes. Este fato é bem caracterizado quando Maheu, ao saber da morte súbita de uma de suas gradadoras, exaspera-se com a possibilidade de produzir menos

“Maheu ficou desesperado: que má sorte a sua! Perdia uma das suas gradadoras, sem poder substituí-la imediatamente... É que trabalhava de empreitada; eram quatro britadores associados na sua zona de corte: ele, Zacharie, Levaque e Chaval. Se ficassem somente com Catherine para gradar, o trabalho atrasaria” (5).

Ferido por estes condicionamentos e tomado pelo orgulho de ser Homem, Etienne se inflama contra “a idéia de ter de ser um animal a quem se cega e esmaga” (6). Ele consegue compreender que a exploração a que estão submetidos não é uma condição Natural. Logo, sendo possuidor do seu direito de contestar, ele se convence do poder intelectivo do operariado que não “...deveria permanecer escravo do patrão que lhe pagava?” (7). Etienne, a partir de então, começa a enxergar com outros olhos as organizações econômicas, políticas e sociais e a sua posição como homem dentro destas conjunturas. Logo, deixa sua posição de passividade e tenta a todo custo intervir na realidade e criar uma força de resistência às injustiças vigentes.

Em outras palavras, Etienne aprende a intervir na História. Ele compreende que como sujeito tem responsabilidade de ser atuante em seu papel social, cultural e histórico. Munido desta consciência, cuja presença tem real importância para nós homens do século XXI, ele parte em luta contra o total fatalismo e aceitação dos sistemas exploradores.

Diante da postura de deixar a passividade para atuar, que não se concretiza sem um conhecimento de si e do mundo, temos a declaração do educador Paulo Freire, que diz:

“Por grande que seja a força condicionante da economia sobre o nosso comportamento individual e social, não posso aceitar a minha total passividade perante ela. Na medida em que aceitamos que a economia ou a tecnologia ou a ciência, pouco importa, exerce sobre nós um poder irrecorrível, não temos outro caminho senão renunciar à nossa capacidade de pensar, de conjeturar, de comparar, de escolher, de decidir, de projetar, de sonhar” (8).

Etienne, já ‘reeducado’ por sua nova leitura do mundo, não tem a intenção de se entregar ao fatalismo e de deixar de sonhar e lutar por melhores condições de vida. No entanto, ele esbarra em uma espécie de ‘resistência a resistir’, que há entre os trabalhadores e que parece sólida e pouco propensa a dar vazão ao exercício de contestar. Em geral, os mineiros são dominados por uma submissão que os faz acreditar que o silêncio e a inércia são condições para a sobrevivência. Catherine, por exemplo, ao ouvir Etienne relatar que tinha esbofeteado um chefe se sente “confusa nas suas idéias hereditárias de subordinação e de obediência passiva” (9). Pierron ao tomar conhecimento da função da caixa de socorro em uma greve empalidece e afirma que o “bom comportamento é a melhor caixa de socorro” (10). Mas é na figura de Boa-Morte que se tem a personificação viva da mentalidade destes explorados. Ele trabalha nas minas desde a infância, pertence a uma família que ali está há um século e narra suas ‘promoções’ (de aprendiz a gradador, de gradador a britador, de britador a carregador) como se tivesse orgulho de ter passado 45 anos de sua vida debaixo da terra. E num momento de lucidez — diante de sua família e de Etienne que refletiam sobre as péssimas condições de vida e sobre a possibilidade de mudanças — Boa-Morte mostra surpresa e incompreensão

“Descia um silêncio sobre o grupo, que respirava a custo, no mal-estar resultante desse horizonte cerrado. Apenas o velho Boa-Morte, quando estava, arregalava uns olhos surpresos, porque no seu tempo ninguém se preocupava dessa maneira: nascia-se no carvão, escavava-se no veio sem pedir mais nada. Agora, novos ventos enchiam os mineiros de ambição.

— Não presta cuspir no prato em que se come — murmurava ele. — Uma boa cerveja é uma boa cerveja... Claro, os chefes são quase sempre uns canalhas, mas sempre haverá chefes, não é verdade? Não quebrem a cabeça pensando nisso” (11).

Em Boa-Morte temos a figura do trabalhador vencido pela opressão e, portanto, incapaz de se colocar na “...marcha esperançosa dos que sabem que mudar é possível” (12). Ele é dominado por uma petrificação, que é fruto do processo de ‘desumanização’ a que vem sendo submetido desde o seu nascimento. Mas, aceitar a imposição da exploração e se dar por vencido devido aos ‘fracassos’ de tantos anos de luta não é a solução. O caminho a ser seguido talvez esteja na perseverança e na compreensão de que a luta dos mineiros e de todos os trabalhadores da atualidade é processualmente histórica. Para aquele que luta é indispensável saber que a sua geração ataca idéias, ideologias e interesses implantados em um distante passado (no caso dos trabalhadores de Voreux, suas condições de vida foram fundamentadas na servidão feudal) e que estes ‘fantasmas’ ainda atuam dentro das estruturas econômicas e sociais em contraposição a aspectos modernos. Logo, tem-se uma acentuada demora em concretizar óbvias reivindicações e para suportá-la é preciso perseverança e conhecimento. Sobre estas duas armas, Paulo Freire em um discurso direcionado a jovens e adultos de um projeto de alfabetização declarou:

“Se não tivesse havido muita chuva que choveu, se não tivesse havido muito sol que queimou, se não tivesse havido muita esperança que se desfez, esta tarde de hoje, possivelmente não ocorreria. Foi preciso que alguns morressem, foi preciso que alguns desistissem, foi preciso que fortalecessem sua coragem de briga e iluminassem o seu sonho de refazer o mundo para que esta tarde ocorresse” (13).

Logo, a luta travada por Etienne — que devemos ter também como nossa — consiste, sobretudo, em apagar do vocabulário dos trabalhadores os advérbios nunca e jamais. A certeza cega de que a organização das minas de Voreux “...nunca andara bem e jamais andaria” (14) é um dos grilhões que impedem os trabalhadores de reverterem sua situação de condenados.

O sistema secular de exclusão social que reina nas páginas de Germinal e reverbera até os dias de hoje em nossa sociedade, deve ser contestado e combatido nos âmbitos do conhecimento. Não do conhecimento frouxo e hipócrita que muitas vezes são disseminados nas instituições de ensino. Mas, de um conhecimento proveniente do ‘senso comum’, cujo aflorar desperta a consciência de ‘Ser’, que conseqüentemente leva o indivíduo à busca do ‘conhecimento erudito’ que lhe dará a consciência de ‘Poder’. Desta forma, munidos da consciência de ser Homem e, portanto, apto a atuar como tal e conhecedores do modo como o sistema e suas conjunturas acordam para que um quinto da riqueza do planeta permaneça nas mãos de poucos, é que poderemos vencer a ‘resistência a resistir’ e partir para uma marcha de conquistas.


Notas.

1. Corrente literária do século XIX que se propunha à observação fiel da realidade. O movimento literário tem como premissas a determinação que exerce o ambiente sobre o indivíduo e a função da hereditariedade.

2. ZOLA, E. Germinal. Abril Cultural: São Paulo, 1981. p. 15

3. Op. cit., p. 19.

4. Poesia épica disposta em três partes (Inferno, Purgatório e Paraíso), escrita por Dante Alighieri possivelmente entre os anos de 1304 e 1320.

5. ZOLA, E. Germinal. Abril cultural: São Paulo, 1981. p. 35.

6. Op. cit. p. 75.

7. Op. cit. p. 175.

8. CALDART, Roseli Salete. KOLLING, Edgar Jorge. Paulo Freire um educador do povo. Anca-Associação Nacional de Cooperação Agrícola:São Paulo, 2002. p. 44.

9. ZOLA, E. Germinal. Abril Cultural: São Paulo, 1981. p. 51.

10. Op. cit. p. 168.

11. Op. cit. p. 174.

12. CALDART, Roseli Salete. KOLLING, Edgar Jorge. Paulo Freire um educador do povo. Anca-Associação Nacional de Cooperação Agrícola:São Paulo, 2002. p. 49.

13. CALDART, Roseli Salete. KOLLING, Edgar Jorge. Paulo Freire um educador do povo. Anca-Associação Nacional de Cooperação Agrícola:São Paulo, 2002. p. 20.

14. ZOLA, E. Germinal. Abril Cultural: São Paulo, 1981. p.


Bibliografia.

ALIGHIERI, D. A Divina Comédia. Editora 34: São Paulo, 2003.

CALDART, Roseli Salete. KOLLING, Edgar Jorge. Paulo Freire um educador do povo. Anca-Associação Nacional de Cooperação Agrícola:São Paulo, 2002.

ZOLA, E. Germinal. Abril cultural: São Paulo, 1981.

FORRESTER,V. O horror econômico. Unesp: São Paulo, 1996.


Um comentário:

  1. Parabéns!!! Saber que um ser humano ainda consegue se envolver em tantos assuntos, não é para
    qualquer um.
    Atenciosamente: Stella Vieira.

    ResponderExcluir