sábado, 12 de março de 2011

Texto base de Scott Fitzgerald: “Dois por um centavo.” Sara Boianosque



Scott Fitzgerald



SARA BOIANOSQUE - boianosque@hotmail.com

Texto base de Scott Fitzgerald: “Dois por um centavo”


(as aspas simples ou duplas se referem a paráfrases ou citações do texto)

‘Sua mãe ainda estava viva e aquilo foi um golpe duro para ela. Tinha uma ideia, uma daquelas antiquadas ideias sulistas de que de certa forma ele devia permanecer na cidade e provar que era honesto.’ Mas Hemmick disse que não. Não! Que não devia nada e que a muito queria mesmo era sair daquela cidade. Que voltaria quando estivesse suficientemente bem para levá-la com ele. Sua mãe brigou, chorou e disse que iria morrer. Acho que quase morreu mesmo. Mas Hemmick era irredutível, aquele ‘não’ soava como uma ideia encravada em sua mente por outrem.

Parecia-lhe de fato estranha aquela posição e não sabia exatamente por qual motivo se agarrava a ela. Desejo de liberdade? Vergonha dos conterrâneos? Desespero motivado pelo calor e pelo inferno do trabalho? Não tinha certeza. Talvez só a vontade de continuar correndo vários quarteirões em busca de uma melhor solução.
Foi embora na mesma semana. Não de cabeça erguida nem de cabeça baixa, ignorava tudo como se não fizesse parte daquele lugar. Não era como os outros e por isso partia. Rompia.

Chegou à casa de seu tio, desajeitado com as mudanças. Mas se adaptou rapidinho, assim como aprendeu logo o serviço. Tornou-se, então, o preferidinho da dona da casa, a mulher de seu tio. O casal não tinha filhos, e lhe agradava aquele rapazinho de vinte e poucos anos, um pouco inexperiente, claro, mas tão esforçado coitado, e por que não dizer também, bem afeiçoado.

Progrediu... Aprendeu tudo, até mesmo a como tomar emprestado do banco sem ninguém notar. Conheceu uma moça e decidiu casar-se. Esforçado o menino e também sortudo, como era bonita sua namorada. Após 10 anos, na ocasião do noivado foi buscar sua mãe naquela cidadezinha para que permanecesse, por fim, com ele em Nova Iorque.

‘Em todos estes anos sempre pensou; durante todos os anos construiu suas opiniões tão parecidas às opiniões da imprensa americana ou da nação articulada à força da paixão que ganhavam uma força quase divina. Havia um certo luxo no seu ato de pensar o qual sempre se permitia à ostentação. Quando um caso era colocado à sua frente, pensava imediata e compreensivelmente repetindo palavras sobre a família, o governo Deus, a vida, o dinheiro, o esforço e a sorte...’

Voltando à cidade recordou os anos de infância com repugnância. Não sabia como podia ter vivido tanto tempo lá. Um calor horroroso, aqueles ‘vadios parados de pé diante das lojas na rua Jackson, com seus chapéus de palha, aqueles rapazes de bolso pra fora e cinto pra trás”. Nova Iorque não. Nova Iorque era outra coisa. Lugar de pessoas distintas e não como aquelas pessoas mesquinhas e fofoqueiras com as quais ele tivera o desprazer de conviver. Em Nova Iorque estas coisas não acontecem.

Progrediu... O casamento foi lindo, o casal era lindo, a festa lindíssima e os convidados agradabilíssimos. Entre eles encontrou um velho amigo da velha cidade – coisas de sua mãe. Entre bajulações e gentilezas o homem comentou:

- Mas quem diria, hein! Hemmick?! O que seria de você naquela cidadezinha, se não tivesse vindo pro norte...?

- Sorte, meu caro! Com um pouquinho de esforço e de sorte todo mundo consegue. Nada mais que sorte...

*
“Você vai ter que aceitar como aceita Abercrombie, pelo que é e sempre será. Está é uma história dos anos mortos.”

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