domingo, 13 de março de 2011

Texto base de Jack London: “Um pedaço de bife.” Naira Gomes dos Santos



Jack London


NAIRA GOMES DOS SANTOS - nairags@usp.br


Texto base de Jack London: “Um pedaço de bife.”


Exercício: Reescrita com retorno de Tom.



Como andar faz naturalmente com que os pensamentos surjam ininterruptamente e com que venham de tão longe, de lugares que nem se pode prever, Tom vagou pelo tempo de sua juventude.

Lembrou de sua energia, de quantos bifes tinha, das vitórias. Não soube explicar o porquê de toda nostalgia, nem porque não lhe saía da cabeça uma luta que travara com um homem de grande experiência, do qual ganhou e viu um choro infantil. De repente, todas as lembranças começaram a pesar. Tom percebeu que caminhava mais devagar, quase caminhando como quem tem tempo para gastar.

Tom estava cansado, profundamente desprovido da energia do outro tempo. E o caminho continuava, impassível sob seus pés. Tom resfolegava com o delírio de suas memórias mescladas à força do vento que batia em seu peito. Tom sentiu seu coração doer, seu braço formigava e ameaçava imobilidade. Parou para descansar. Ficou ali por tempo indeterminado. Talvez já fosse o horário da luta. Às vezes, via sua esposa e as crianças tão perto e depois tudo sumia. Tom voltava a si. Quando se recuperou, quase por completo, tentou ficar em pé. Conseguiu e decidiu retornar. Retorno duplamente penoso.

Como contar? Como ser derrotado sem lutar? Era a primeira vez que se decepcionava com sua força. Voltou sem ter consciência dos passos que dava. Entrou apavorado. Sua mulher o viu e permaneceu parada por instante. Ela o beijou mais uma vez, com a delicadeza de um anjo, e foi dormir. Ele também dormiu e naquela noite sonhou com tantos bifes, tantas jovens e prêmios… Acordou com a batida na porta.

Os apostadores dobraram o valor. E agora havia grande adiantamento. Tom olhou para a mulher na cozinha. Estava orgulhoso por ter os homens na sua casa, não podia negar todo aquele dinheiro. Era comida para todos por uma semana. Os homens suavam, já tinham dado a palavra. Tom refletia muito e rapidamente as imagens do bife, do caminho, da juventude, do homem derrotado chorando lhe vinham à mente sem que tivesse tempo para articular alguma resposta. Os homens falavam de luxos, de carro para o transporte e treino por três dias. Tom ouvia pouco e pensava mais. Não conseguia sair do sonho, talvez porque fora surpreendido enquanto dormia. Foi quando decidiu beber um pouco de água para organizar as idéias. Pediu licença, foi até a cozinha, encheu o copo e, a cada gole, seu olhar se deparava com aquela situação de chegada. Nada nos armários que já não tinham porta, nada para fazer, nada para comer.

O resto de farinha que coloria de leve o pote de plástico sujo. Tom bateu o copo como quem acaba de tomar uma dose. Olhou para a família uma última vez.


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