domingo, 13 de março de 2011

Texto base de Jack London: “Um pedaço de carne”. Solange Peixe Pinheiro de Carvalho



Jack London


SOLANGE PEIXE PINHEIRO DE CARVALHO – solange.pinheiro@ig.com.br


Texto base de Jack London: “Um pedaço de carne”



Final alternativo



Tom parou antes de atravessar a rua. Pessoas andavam de um lado para outro, barulho de conversas, de risadas, e de repente ele começou a pensar: o que vou fazer lá? Destreinado, velho, com fome, sem forças; estava enganando a quem? a si mesmo? Um velho sem forças e um jovem arrogante, bem nutrido, confiante, quem poderia vencer? E ele, Tom, não faria naquele estádio o papel de palhaço, apanhando de um novato para que o respeitável público se divertisse?


Deu meia volta e começou a refazer o caminho para casa, ainda mais lentamente do que estava andando enquanto ia para o estádio. E a cada passo ele ouvia o eco das palavras pronunciadas – por quem? “derrotado... derrotado... velho... acabado...” Compreendeu então que ele nunca havia significado nada para ninguém; quando estava no auge da fama as pessoas iam vê-lo lutar, não por ele, mas sim pelo espetáculo em si, pelo prazer de ver o sangue correr, de ver alguém ser derrotado, de ver a mesma cena se repetindo vez após vez – a derrota de um, a vitória de outro, mas não importava quem ganhasse ou vencesse, e sim, que o público se divertisse. Ah, e como eles se divertiam.


Parou de novo, lembrando-se do tempo em que o dinheiro fácil fluía de suas mãos, antes que os nós de seus dedos se acabassem na sucessão de golpes nos adversários. Não adiantava chorar o passado, e não resolveria nada lutar no presente, pois o futuro já lhe parecia decidido – velhice, pobreza e dois filhos sem opções na vida, vagando pelas ruas. Antes de enfrentar as perguntas da esposa e os olhares críticos dos credores e dos vizinhos, ele tinha de achar uma saída. E continuou a andar, sem rumo, sem se preocupar em voltar para casa, pois aqueles a quem a sociedade rotula como perdedores não se sentem em casa em lugar
nenhum.


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