quinta-feira, 24 de março de 2011

RESENHA do livro “O RATO PENSADOR”, por Maria Sílvia Betti






RESENHA

SOBRE “O RATO PENSADOR”, de Agenor Bevilacqua Sobrinho.
Companhia Cultural Fagulha, 2002, Coleção Teatro na Escola.
Maria Sílvia Betti - Professora da FFLCH/USP - Universidade de São Paulo


"O RATO PENSADOR" e seu percurso de descobertas e reflexões.

"O Rato Pensador", fábula teatralizada por Agenor Bevilacqua Sobrinho, é a recriação de uma narrativa popular da Sardegna relatada pelo pensador Antonio Gramsci (1891-1937) em uma das cartas que escreveu do cárcere a Giulia, sua mulher. Desenvolvendo o enredo a partir da narrativa evocada por Gramsci, Agenor presta homenagem ao filósofo ao mesmo tempo em que traz ao público brasileiro a oportuna reflexão acerca da responsabilidade social presente na fábula sarda.

O vasto material epistolar deixado por Antonio Gramsci é rico em referências à importância do ato de narrar, assim como em reminiscências de infância impregnadas de menções a historietas correntes no contexto sardo do início do século.

Sendo a Sardegna contemporânea a Gramsci uma região pobre e marcada por problemas socioeconômicos, o paralelo estabelecido por Agenor com o contexto brasileiro do Nordeste e de regiões de baixa renda torna-se extremamente significativo. Esse é um dos aspectos centrais da fábula recriada e de sua encenação.

Um rato toma o leite que uma mulher, pobre e desempregada, estava reservando para o filho. O choro do menino e a frustração da mãe enchem o rato de remorsos. Disposto a reparar o erro, ele tenta proporcionar ao garoto o leite de que o havia privado, e acaba chegando a uma série de constatações que transformam seu olhar a respeito das relações sociais e do impacto delas sobre a natureza.

No percurso que assim se inicia, o rato é acompanhado por duas pequenas palhacinhas com as quais dialoga e com as quais comenta as dificuldades que encontra ao longo do caminho.

Um enredo simples e desenvolvido a partir de uma situação aparentemente desprovida de aventura leva a surpreendentes desdobramentos: ao contrário do que julga o rato, sua boa vontade individual não é suficiente para sanar o problema, cujas raízes são mais profundas do que ele supunha: a cabra, desnutrida, não tem pastagens para se alimentar, e portanto não pode lhe dar o leite desejado; o capim seco que cresce no campo devastado precisa de água que possa revitalizá-lo a fim de alimentar a cabra e dar-lhe forças para produzir o leite; a fonte, destruída pela guerra, deixa escorrer e perder-se a água que poderia irrigar o campo e fazer crescer o capim; o pedreiro, que não dispõe de pedras, não pode consertar a fonte, e a montanha onde se encontram as pedras sofreu o desmatamento e a erosão resultantes da ação dos especuladores, cujo interesse único é o lucro.

Toda uma conjuntura ampla e complexa vai sendo pouco a pouco desvendada pelo ratinho pensante. Em sua trajetória não faltam os atropelos motivados por encontros com representantes do saber acadêmico (personificado no autoritário Professor Atrapalhão), do tempo expropriado pelo mundo competitivo do trabalho (simbolizado na corrida desenfreada do personagem Atrasildo em sua maratona de compromissos e nas dezenas de relógios que leva consigo) e da incapacidade de transformação (associada ao personagem Apavorado, que nutre um medo supersticioso e apocalíptico de tudo à sua volta).

Ironicamente, a chave para lidar com esse conjunto intrincado de situações acaba sendo fornecida pela Bruxa, figura a quem o rato havia relutado em recorrer, a despeito dos conselhos recorrentes das palhacinhas. A imagem de uma feiticeira perversa e cheia de artimanhas cai por terra quando, vencendo o preconceito, o rato se dispõe a ouvi-la, e descobre nela uma mulher do povo, cuja sensatez e sensibilidade serão decisivas para levá-lo a encontrar a melhor forma de agir diante das situações que se apresentam.

Ao invés de mágicas e sortilégios, o rato encontra nas sugestões da mulher uma perspectiva de ação sobre a realidade à sua volta. As palavras dela apontam para um processo longo, e não para uma solução imediata, e a transformação produzida virá apenas com o tempo: para que o menino tenha o leite, é preciso que a consciência interfira na sociedade e na natureza. A imagem do dominó, sugestivamente presente na brincadeira das crianças no início do espetáculo, funciona como metáfora de toda a cadeia causal de circunstâncias com as quais o rato irá se defrontar e que irão desencadear o seu processo de reflexão e aprendizado.

A fábula de Agenor incorpora à matéria-prima da narrativa de Gramsci um importante elemento de reforço de seu sentido crítico, que é a presença constante do ato de narrar: o rato relata os acontecimentos às duas palhacinhas que o acompanham, e, ao fazê-lo, constrói um olhar sobre eles, permitindo que sejam postos em discussão.

As meninas, que vêem de fora a sequência dos fatos, interagem e opinam; o rato, colocado diante de suas interlocutoras, critica-as na mesma medida em que compartilha com elas toda a sua aflição.

Também as figuras de Atrapalhão, Atrasildo e Apavorado funcionam como elementos emblemáticos inseridos por Agenor na estrutura da fábula sarda, e permitem uma referência crítica ao mundo da escola, do trabalho e das relações sociais, respectivamente.

A questão ecológica, que perpassa todo o texto, é indissociável da existência da guerra e da exploração da natureza e do trabalho, aspectos que conferem ao espetáculo uma grande riqueza de possibilidades sob o ponto de vista pedagógico.

Gramsci, aprisionado em 1927 e morto dez anos depois, passou sua última década de vida entre o cárcere e as clínicas de saúde, sempre em regime de liberdade vigiada. Na época de sua prisão, seu filho mais velho, Delio, a quem ele não tornaria a ver após ser preso, tinha então três anos de idade, e o mais novo, Giuliano, que ele só conheceu por fotos e cartas, ainda não era nascido.

O desejo de transmitir a eles afeto e experiência foi avidamente canalizado por Gramsci através das cartas, e encontrou em lembranças de infância e em narrativas folclóricas um importante veículo de comunicação com os meninos. Vem daí o cuidado didático e afetuoso com que o filósofo instrui Giulia a recontar a fábula aos garotos: "gostaria de contar agora a Delio uma história da minha terra que me parece interessante. Vou resumi-la para você e você a desenvolverá para ele e para Giuliano".

O resumo feito pelo filósofo não edulcora os elementos originais da narrativa popular, como acontece, via de regra, em narrativas contemporâneas de contos infantis tradicionais. Gramsci preocupa-se em transmitir a Giulia o arcabouço de fatos de forma objetiva e despojada. Isso comprova a eficácia do material narrativo contido no enredo da fábula, que se apresenta rica de elementos a serem, tal como ele recomendou à esposa, desenvolvidos no relato aos meninos.

Ao contrário do que ocorre nos contos de fadas convencionais e nas histórias de aventuras, a riqueza da fábula não está contida nas ações praticadas, mas no conjunto de relações que elas desvelam e na presença implícita daquilo a que Gramsci se refere, em sua carta, como "um verdadeiro plano próprio de trabalho, orgânico e adaptado a um país arruinado pelo desmatamento". Nada mais adequado, portanto, do que o título "O Rato Pensador", referência a um itinerário de descobertas que levam à construção de um pensamento crítico.

         A concepção essencial da fábula recriada por Agenor se faz presente na concretização de um preceito essencial que remete não apenas ao pensamento de Gramsci mas também ao do dramaturgo e pensador teatral Bertolt Brecht (1898-1956): as coisas e as conexões mais triviais devem ser examinadas atentamente e discutidas, pois em sua forma e nas relações que constroem existem aspectos importantes a serem conhecidos e dominados. "Em tempo de desordem sangrenta," diz Brecht, "de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar." Esse é, justamente, o espírito do trabalho desenvolvido por Agenor Bevilacqua Sobrinho em seu espetáculo "O Rato Pensador".
Maria Sílvia Betti
Professora da FFLCH/USP – Universidade de São Paulo

O Rato Pensador
Ed. Companhia Cultural Fagulha
editora@ciafagulha.com.br


Editora: Cia. Fagulha
ISBN: 85-902373-1-1
Páginas: 60

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