domingo, 13 de março de 2011

A presença do dinheiro, por uma perspectiva de Karl Marx, na literatura. Vitor Ahagon




Karl Marx




VITOR AHAGON - vitor.ahagon@gmail.com


A presença do dinheiro, por uma perspectiva de Karl Marx, na literatura.

Universal, mediador, qualificador, inversor, são algumas das “qualidades” das quais Marx atribui ao dinheiro no ultimo capítulo do livro “Manuscritos econômico-filosóficos” escrito em 1844, do qual somente é publicado em 1932, influenciando toda a esquerda marxista e intelectuais marxianos do planeta, sendo que este escrito é a primeira critica, de duplo caráter, econômico e filosófico, a Adam Smith e David Ricardo que Marx promove.

As “qualidades” expostas acima se entrelaçam e se relacionam de tal forma que promove a inversão de sensações e sentimentos humanos. Marx para demonstrar e fundamentar sua tese utiliza-se de “Fausto” de Goethe e “Timão de Atenas” de Shakespeare. Para demonstrar a relação de mediação e como o dinheiro se torna fonte de capacitação de qualidades que se não possui Marx parte de Goethe, já para demonstrar como que o dinheiro promove a inversão utiliza-se de Shakespeare, mas as analises que Marx elaborou em relação ao dinheiro também estão expostas em outras obras de autores literários.

No conto de F.Scott Fitzgerald “Dois por um centavo”, escrito em 1922, o autor nos conta a historia de Abercrombie e Hemmick, e como um centavo alterou toda a vida desses dois homens.

Ambos moravam na mesma cidade quando jovens, lugar ao sul dos EUA. Abercrombie começa contando sua historia e de como estava angustiado em querer sair daquela cidade e poder se encaminhar para o norte, na época guardava algum dinheiro e trabalhava como mensageiro de um banco. Por conta do roubo do banco por um funcionário a situação complicou para todos que lá trabalhavam, pois a desconfiança aumentava cada vez mais. Certa vez Abercrombie foi cobrar uma promissória e no trajeto perde uma moeda de um centavo, fica louca na procura dessa moeda, encontra-se com o vice-presidente do banco na rua e traz desconfiança pelas suas ações espalhafatosas e estabanadas, logo depois é pego, tenta se explicar, porém em vão, depois disso sua reputação fica mal vista pela cidade impossibilitando-o, reforçado pelas chantagens de sua mãe, sua partida da cidade, até que sua honra fosse recuperada, o que durou 10 anos.

A historia de Hemmick nos diz que também desejava sair da cidade, pois era tido como um “feijãozinho” (1), porém não tinha dinheiro suficiente para comprar a passagem, lhe faltava um centavo, do qual viu brilhando no chão, o mesmo lugar onde Abercrombie tinha perdido o seu centavo, Hemmick pegou o centavo, partiu para o norte e tornou-se um homem de negócios bem sucedido (2).

Um centavo tornou-se o signo da ascensão de um e a derrocada de outro, o dinheiro então tem o poder de decidir o futuro, o destino dos homens, aqueles que possuem a “graça” do dinheiro irão prosperar.

“A universalidade de seu atributo é a onipotência de seu ser...” (3).

O dinheiro então está presente em qualquer lugar do planeta e que também tem o “poder” de direcionar a vida dos homens, onipresença e onipotência, o dinheiro torna-se Deus e ao tornar-se Deus o dinheiro nos possibilita realizar “milagres”. “O dinheiro, na medida em que possui o atributo de tudo comprar...é, portanto, o objeto enquanto possessão eminente” (4) nos possibilitando, milagrosamente, a obtenção de qualidades das quais não nos pertence enquanto indivíduos, “o que eu sou e consigo não é determinado de modo algum, portanto, pela minha individualidade” (5).

No conto de Nikolai Gogol, “O Capote”, o protagonista da historia Akaki Akakievitch, encontra-se numa situação que terá de comprar um capote novo, porém está sem dinheiro. Seu “capote” antigo estava surrado, velho e todo remendado, impossibilitando o concerto do mesmo, sendo que se parecia mais com uma capa, o que lhe proporcionava piadas, gozações, humilhações e todos os tipos de rebaixamento, isto quando notavam sua presença.

Akaki então tem de comprar um capote novo, economiza daqui e dali, retira suas parcas regalias e consegue o dinheiro do capote, ao comprá-lo tudo muda em sua vida, não era mais tido como piada, mas era recebido com elogios, ninguém mais o humilhava, pois sua aparência era altiva, era convidado para festas, enfim, tornou-se visível (6).

Nesse conto de Gogol notamos que na compra de um capote novo Akaki carrega nos ombros então todas as qualidades das quais o capote representa, promovendo a inversão de qualidades. O ser invisível que era Akaki, passa a ser visível pelo capote, “o dinheiro é, portanto, a inversão universal das individualidades, que ele converte no seu contrário e que acrescenta aos seus atributos atributos contraditórios” (7), “ele é a confraternização das impossibilidades, obriga os contraditórios a se beijarem” (8).



1. Vagabundo.
2. Fitzgerald, F.Scott. Dois por um centavo. Muggiati, Roberto (org.). A selva do Dinheiro. Ed. Record, p. 69-84.
3. Marx, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Ed Boitempo.p. 157.
4. Idem.
5. Ibdem, p. 159.
6. Gogol, Nikolai, O capote. Muggiati, Roberto (org.). A selva do Dinheiro. Ed. Record, p. 205-234.
7. Marx, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Ed. Boitempo, p. 160.
8. Idem.p 161.

Bibliografia:

• MUGGIATI, Roberto (org.). A selva do Dinheiro. Ed.Record.
• MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Ed. Boitempo.




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