quinta-feira, 10 de março de 2011

Texto base: “Por causa dos dólares”, de Joseph Conrad. Por causa dos dólares, ontem e hoje. Priscila Almeida



Joseph Conrad



PRISCILA ALMEIDA

priscila.alves.almeida@hotmail.com

Texto base: “Por causa dos dólares”, de Joseph Conrad.


Por causa dos dólares, ontem e hoje

Sempre ouço que, quando lemos um texto, não devemos deixar de lado seu contexto histórico, uma vez que, em muitos casos, não mais acharemos correspondência entre o que determinado texto trata e a realidade de nosso mundo. É claro que essa frase faz todo o sentido e a contextualização é sempre muito benéfica quando lemos algo. O que eu acho ainda mais curioso, porém, é justamente o contrário: observar a quantidade de semelhanças entre nossos tempos e os tempos que já se foram. E há coisas que parecem não mudar.

No texto "Por causa dos dólares", de Joseph Conrad o que mais me chamou a atenção foi a bondade de Davidson, herói da história. Era uma bondade que não cabia em seu mundo e que se tornou, de certa forma, o principal motivador de sua tristeza. Essa bondade não cabia em um mundo repleto de espertalhões prontos a devorá-lo.

Se traçarmos um paralelo entre nossos dias e os dias em que o texto foi escrito (em 1914), notaremos várias diferenças históricas que nos separam, como a Primeira Guerra Mundial que se iniciava e que há muito já terminou (ou foi substituída pelas novas). Porém, notaremos igualmente pontos comuns.

A bondade hoje também não encontra espaço (encontrou um dia?). O lema hoje é "o mundo é dos espertos" ou "salve-se quem puder", se preferir. O recado é o mesmo: pense só em você, os outros que se virem.

Outro dia encontrei minha irmã lendo um desses livros de auto-ajuda intitulado "Mulheres boazinhas não enriquecem". Quando li o texto de Conrad, lembrei instantaneamente do livro e de como o mundo ainda privilegia o dinheiro à bondade. Na época, achei que o livro refletia bem o pensamento individualista da pós-modernidade, como alguns nos classificam. Hoje penso se não classifica bem outros (ou todos) os tempos. "Homem tem dominado homem para seu prejuízo", dizia a Bíblia. Apesar disso, a busca do lucro ainda é o que nos impulsiona.

Muitas "Annes" (nada risonhas), espalham-se mundo afora, padecendo de suas desgraças e pobrezas, em contraposição aos Davidson, escassos e bondosos. Já os "Franceses", existem hoje em todas as nacionalidades e seus comparsas, "Bamtzes", "Fectares" e outros crescem cada vez mais. Estão hoje em todas as categorias. Como nos diria o samba, os 'malandros', como poderíamos chamá-los, modernizaram-se e andam por aí "com aparato de malandro oficial" e até "malandro candidato a malandro federal".

No texto, nos consola saber que o herói é humano. Humano e bom. Tem medo e se preocupa com os outros. Porém era único. Talvez precisássemos de mais davidsons, que, invertendo a situação, não dessem lugar aos vilões do mundo real, em que só caberia a bondade dele.

Resta a esperança. Mas, como ouvi alguém dizer, a esperança é boa, se não a traduzirmos por "esperar". Creio que, se assim fosse, não nos tornaríamos davidsons, e sim pedros pedreiros e terminaríamos nossos dias com uma mera "esperança aflita, bendita, infinita” de algo que nunca chegará – se não houver ação.


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