quinta-feira, 10 de março de 2011

Textos: Zola: Germinal; Graciliano: Vidas secas; Vinícius: Operário em construção; Chico Buarque: Construção. - O germe da mudança. Heloísa Robles




Mudança social




HELOÍSA ROBLES —

Texto baseado nas seguintes leituras:


ZOLA, Émile. Germinal. (1881)

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. (1938)

MORAES, Vinícius de. Operário em Construção. (1970)

HOLLANDA, Francisco Buarque de. Construção. (1971)


“Se algo capaz de perdurar e renascer na História pudesse ser alcançado pela ação humana, esse algo viria da massa dos pobres.”

(Bertolt Brecht)


Tempestade de neve (G.G, p. 1149)

A tempestade nos gela

Quem vai resistir a ela?

Quem fica?Vê se descobres:

“A terra, as pedras e os pobres.”

(Bertolt Brecht)


O germe da mudança

A luta pela liberdade e igualdade de condições vem marcando a história dos povos com movimentos populares, em busca de um ideal de justiça e contra a opressão. Tornou-se necessário o surgimento de líderes que interiorizaram essa mudança, mas que, muitas vezes, sucumbiram, por falta de ações grupais mais efetivas, as quais pudessem levar as comunidades a gerar mudanças político- econômicas importantes em diferentes sociedades.

Em Germinal, de Émile Zola, as minas ferviam ao calor da Revolução Industrial do século XIX, concentrando, debaixo da terra, muita injustiça social, com o trabalho infantil imensamente explorado e a riqueza produzida pelas máquinas e por operários, concentrada nas mãos dos industriais. O germe da mudança desenvolvia-se subterraneamente, com grupos de discussão e de idéias que afloravam num desejo de vingança e de reação coletiva. Mas as minas tragavam os trabalhadores, física, emocional e psicologicamente, fazendo com que suas tentativas de organização se esvaziassem diante das promessas de ”líderes messiânicos”, corrompidos e iludidos pelos patrões. A Igreja e outras instituições sociais, que também se diziam “representantes populares”, mostravam-se indiferentes ao trabalho dos operários e de sua sede de mudança. Conseqüentemente, muitas associações de trabalhadores se desfizeram, e os proprietários das máquinas continuaram controlando a produção.

O desejo de liberdade também existia em Fabiano, de Vidas Secas. E a ausência de vocabulário do personagem demonstrava sua revolta e contenção emocional. Entretanto, Fabiano era bastante lúcido sobre sua condição social, sabia o que queria. Como retirante do nordeste brasileiro, tinha consciência do sistema injusto que o expulsava da região, que o mandava para outro local e da natureza agreste que teria de enfrentar. Fabiano desejava ser vaqueiro com os meninos estudando em boas escolas; almejava que Sinhá Vitória tivesse uma cama como a do Sr. Tomás da Bolandeira, que ela pudesse se vestir como as moças da cidade e que Baleia os tivesse acompanhado até outro destino. A consciência de sua situação de oprimido existia, mas Fabiano se sentia sozinho e impotente; o máximo que fizera fora reagir contra a agressão do Soldado Amarelo, o que lhe custara alguns dias na prisão.

O livro de Graciliano Ramos apresenta uma narrativa circular, fechada em sua construção: quando se inicia com a “Mudança” e termina com a “Fuga”, ou seja, nada se havia alterado para Fabiano e sua família. O germe da liberdade se movimentava dentro dele, representado pelo tempo psicológico denso de toda a narrativa, porém a ausência de uma ação coletiva impedia-lhe de romper com a fatalidade frente a uma natureza agressiva e a um sistema político-social desumano. O retirante teria de buscar outro destino, uma vez que qualquer iniciativa de rebelião coletiva era apagada e dominada pelos grandes proprietários de terra. Comparado a um animal, sem palavras para se expressar e sem um grupo social que o mobilizasse, Fabiano continuaria em fuga, numa mesma situação, deixando sua indignação e seus sonhos por onde passava.

Em “Operário em Construção”, de Vinícius de Moraes, a contestação é mais evidentemente descrita. O germe da mudança existia no “operário em construção”, que ia, pouco a pouco se tornando “operário construído”, quando percebia “que tudo o que fazia pertencia ao patrão”. E essa conscientização vai crescendo dentro do poema, demonstrando o amadurecimento do personagem e sua ação efetiva, previamente preparada para dizer ”não” à opressão, ao trabalho forçado, ao patrão corrupto, questionando, até mesmo, a sua simples profissão de operário injustiçado pelo sistema. Na medida em que este trabalhador atinge a “dimensão da poesia“ e se torna um “operário construído”, sua consciência de trabalhador já se torna universal como a arte, livre de preconceitos e valores: o genuíno sentimento contido no peito de cada ser humano e o coração repleto de sonhos. O operário já construído conseguiu expandir sua ação e outros se juntaram a ele, movimentaram-se num verdadeiro repúdio coletivo às injustiças que sofriam, num forte e verdadeiro movimento de classe .

Em “Construção”, de Chico Buarque de Hollanda, a tentativa de mudança existiu, mas não foi conquistada. O operário subiu a construção elevando o edifício, desta maneira projetando também a sua liberdade, acusando um sistema político-social injusto, tentando construir outro mais humano, para mudar de vida, mas fracassa: “flutua no ar como um pássaro” que buscava a paz, “morre na contramão atrapalhando o tráfego, o sábado, a vida”, numa atitude individualizada, com um grito fracassado contido no peito, tornando-se um estorvo social.

Deus lhe Pague”, segunda parte do poema em música, parece ainda reforçar a alienação do injustiçado social que ainda agradece ao patrão por poder fazer parte da sociedade, ou uma crítica aos ensinamentos religiosos de agradecimento e humildade constantes, que valorizam a vida, mesmo sem condições básicas .

O germe da mudança existe em todo ser humano, porque buscamos aberturas pessoais, profissionais e sociais, na conquista de uma vida mais digna. Muitas vezes, a ação fica tolhida, muito individualizada, dispersa, o grito não ecoa, mas fica contido no coração dos cidadãos, na espera de um momento adequado para resultados concretos e de ações evidentes. Ações coletivas têm demonstrado alterar o curso da história dos povos, seja quando se combatem governos autoritários, seja quando se coloca um presidente popular no comando do país, seja quando há o comparecimento maciço às urnas, gerando protestos e elegendo um presidente das minorias. O povo clama emocionado por mudanças, acredita que seu voto e ação lhes trarão benefícios futuros e, gritando um ”não” à ordem estabelecida, tenta mudar o processo histórico-político-social de seu país.


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