quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Malabarismos publicitários





Malabarismos publicitários



Ética: [Do lat. ethica gr. ethiké. ] S. f. Filos.

Estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto.


Vamos analisar a publicidade, sua prestidigitação ideológica e sua função social.

As referências mais sensatas sobre a função da publicidade na sociedade insistem em diagnosticar o papel dessa área de atividade humana no sentido da manutenção do “status quo” e no de proporcionar suposta coesão numa sociedade cindida pelas desigualdades de classe. Assim, a venda do produto não seria o objetivo primordial (1).

A dinastia que governa o Egito, por exemplo, há muito tempo é sustentada pelos EUA. Agora, com os protestos populares, não convém alinhar-se automaticamente ao fiel aliado no Oriente Médio. Péssima propaganda para os valores ocidentais aparecer na foto com ditadores no momento em que são contestados, espancam a população, censuram a internet etc. Depois, nos bastidores, sem problemas.

Os ataques bélicos dos EUA contra o Iraque, por sua vez, foram acompanhados de intenso bombardeio publicitário para impressionar favoravelmente a opinião pública internacional. Almejado pela administração Bush e seus falcões, o “controle do planeta” pela estratégia militar (2) seria apresentado como processo para estender a “qualquer obscuro rincão do mundo”, nas palavras de Bush, o modelo democrático ocidental. “Notícia” alvissareira: podemos nos tranquilizar.

Mas, em determinado momento, a propaganda emudece. Nada. Nenhuma palavra sobre as reais intenções da maior potência do planeta. Parafraseando Eduardo Galeano (3): se o Iraque produzisse alfaces em lugar de petróleo, a quem ocorreria a ideia de invadir aquele país?

Quais cenários podem emergir no Egito? A ditadura será intensificada ou perderá força para a rebeldia popular?

Afinal de contas, queremos desvendar engrenagens de poder e suas máscaras. Ao lembrar situações tão díspares entre o enunciado e o real significado das pretensões dos divulgadores de tais ideias, tivemos a intenção de compreender como se dá o controle das peças publicitárias na sociedade brasileira.

A partir da seleção de casos (peças publicitárias) paradigmáticos de desrespeito aos mais elementares preceitos éticos, procuramos demonstrar como eles incidem em infrações aos códigos (público e privado) que controlam a atividade profissional em publicidade e propaganda. Descobrimos elementos esclarecedores para tipificar cada uma das incorreções e/ou erros cometidos em campanhas publicitárias.

Compreendendo os interesses econômico-financeiros envolvidos na questão, realizamos um mapeamento que nos permitisse constatar a inadequação entre o projeto de autorregulamentação, inscrito na natureza do CONAR - Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, e sua real atuação no ramo.

Estudando as peças, localizamos os fundamentos do discurso publicitário e sua função social para a manutenção do “status quo”. O esforço resultou na confirmação de nossa hipótese inicial sobre as razões das seguidas desobediências aos regulamentos dessa área de atividade.

Ao fazer o levantamento de casos de peças publicitárias e observar as violações ao CEP - Código de Ética da Publicidade, e, também, aquelas que procuram burlar/fraudar o CDC - Código de Defesa do Consumidor, consideramos como hipótese inicial o desequilíbrio na representação de consumidores na composição do CONAR, o que o transforma em defensor, talvez a contragosto de alguns de seus membros, do corporativismo profissional. Ademais, comprovamos o alcance e os limites na atuação do órgão “autorregulatório”.

Como dissemos, o órgão encarregado de disciplinar os agentes dessa área profissional é denominado CONAR. Desse modo, a ele caberia, por intermédio de seu Conselho de Ética, orientar e aplicar sanções, quando necessárias, para que as produções das agências não entrem em conflito com as determinações do Código de Ética profissional da categoria. Seguir as exigências de preceitos éticos é condição para se impor limites aos que desconsideram o respeito e a existência de valores que norteiam uma comunidade em suas mais variadas dimensões.

Diante das seguintes indagações:

1) Sendo seus membros majoritariamente oriundos de Agências Publicitárias e dos veículos, pode o CONAR agir com isenção em seus julgamentos?

2) Até que ponto o CONAR não seria uma espécie de má-consciência do setor publicitário?

Formulamos o propósito de realizar estudos de casos que demonstrem a plausibilidade de nossa hipótese inicial, a saber:

O CONAR não passaria de uma justificativa ideológica para camuflar e dar continuidade aos abusos que se cometem na indústria da venda de sonhos embalados em papel celofane ou assemelhado.

Em que se basearia aparente severidade? Não estaríamos inclinados a “jogar a criança com a água suja do banho”?

Aqueles que seguirem nossa argumentação de maneira objetiva poderão encontrar propostas concretas que impedem a dissolução do existente sem que se vislumbre a possibilidade de haver algo em seu lugar.

O presente trabalho procura colaborar na superação do impasse em que se encontra o CONAR: sua autodenominada independência e, por outro lado, estar manietado em razão do desequilíbrio de seus quadros, o que o torna francamente favorável ao mercado.

Realizamos os estudos de casos (peças publicitárias) investigando as relações entre a legislação e a ignorância deliberada a ela por parte dos agentes econômicos envolvidos.

Peças discriminatórias, machistas, sexistas, arrogantes, e o fato de elas perdurarem por meses a fio nos meios de comunicação, evidenciaram nitidamente o que havíamos formulado: a necessidade de criar um novo órgão do setor. O CSP - Controle Social da Publicidade seria a saída para o impasse, possibilitando ação mais efetiva, independente e que acolha sempre, em primeiro lugar, o interesse público.

Procuramos entender por que as leis que teoricamente deveriam proteger os cidadãos não são aplicadas contra agências e empresas que fazem da transgressão um “modus operandi”, e, muitas vezes, são inescrupulosas, como a personagem Arturo Ui, de Brecht (4).

Nos links abaixo, você terá alguns exemplos do que encontrará semanalmente por aqui.

Aproveito para agradecer aos leitores que caminharem conosco nessa jornada.



1. COSTA LIMA, L. (Org.) Teoria da cultura de massa. Rio de Janeiro: Ed. Saga, 1969.

2. AMIN, Samir. “A ambição desmedida e criminosa dos EUA.” In: http://resistir.info/samir/ambicao_criminosa.html .

3. GALEANO, Eduardo. Curiosidades da Guerra. In: Mundo, Folha de São Paulo, 20/03/2003, p. A-23.

4. BRECHT, Bertolt. A resistível ascensão de Arturo Ui. In: Teatro Completo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, v. 8.



http://agenorbevilacquasobrinho.blogspot.com/2010/12/grosseria-anda-de-chinelas-as-havaianas.html

http://agenorbevilacquasobrinho.blogspot.com/2010/12/nissan-frontier-agroboys-homofobia.html

http://agenorbevilacquasobrinho.blogspot.com/2010/12/rebeldia-enlatada-publicidade-iii.html

http://agenorbevilacquasobrinho.blogspot.com/2010/12/lipoaspiracao-cerebral-limpador.html

http://agenorbevilacquasobrinho.blogspot.com/2011/01/os-que-ficam-sao-trofeus-coca-cola.html


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