sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Os que “ficam” são troféus. A Coca-Cola assume as relações descartáveis como identidade dos jovens e de sua própria existência — Publicidade V







Os que “ficam” são troféus. A Coca-Cola assume as relações descartáveis como identidade dos jovens e de sua própria existência.



Locação: praia. Personagens: casal de adolescentes.


Conhecidos há apenas algumas horas, dois jovens estão sentados na praia. Ele diz ter adorado conhecê-la. Ela exprime a mesma ideia; e nota que o tempo passou “voando”. O garoto segura uma lata de refrigerante da Coca-Cola. Um carro toca a buzina e chama o menino; o rapaz levanta-se e caminha em direção ao automóvel. A garota pede um gole de Coca-Cola, mas o menino alega que já havia acabado. Mesmo assim, ela pede a latinha para ser guardada como recordação do encontro dos dois.


Ao chegar em casa, a adolescente acrescenta o “troféu” à sua extensa fileira de latinhas na prateleira de seu quarto. Por hora, é a última e mais nova aquisição.


Então aparece a legenda: “Ficar, essa é a real... Coca-Cola.”


Acompanha-se por instantes não uma “pessoa”. Mas uma multidão de seres convertidos em caça, em prêmio. Interessante a demagogia que se faz com a imaturidade dos jovens: valores fugidios, descartáveis e frívolos são enaltecidos e vangloriados como sinal de força e perspicácia. O desfile fátuo pretende assumir ares “épicos”. A promiscuidade da jovem é travestida como ato exemplar. Pena que não se tenha o mesmo respeito pelas “profissionais” do ramo...


Ao encorajar e idealizar tais atitudes não se procura nada além de criar vínculo de identidade com o público-alvo desta faixa etária. Os espertos publicitários acorrentam em seu querer os pretensos “espertos” jovens, que se aprisionam ao ritmo daqueles que “deitam falação” para envolvê-los.


Essa empresa de refrigerantes aprecia deixar de lado a Ética. Observamos que o artigo 37, mormente a letra F, do Código de Ética é retumbantemente deixado de lado. Pois o anúncio desconsidera os “cuidados especiais que evitem distorções psicológicas nos modelos e impeçam a promoção de comportamentos socialmente condenáveis”. Mostrar como paradigma algo que depende da falta de clareza de adolescentes, deixa de ser “real” e passa a ser forma de induzir as crianças da mesma idade em tais atos, tidos como “naturais”, ou seja, desguarnecidos de sua roupagem cultural e das imposições de interesses mercantis nada desprezíveis.



Infrações ao Código de Ética do Conar: Artigos 1º, 5º, 6º, 15, 19, 20, 22, 23, 34 e 37.


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