quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Rebeldia enlatada - Publicidade III






Rebeldia enlatada


No afã de manipular os desejos das pessoas, a publicidade não mede esforços e também não observa, muitas vezes, os mínimos preceitos éticos contidos nos artigos do Código de Ética do CONAR – Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (www.conar.org.br).


Em seu artigo 37º, o CONAR reconhece a especificidade do anúncio dirigido à criança e ao jovem, portadores de características psicológicas próprias. Para não haver abusos, o item b deste artigo assevera o respeito a ser demonstrado pela ingenuidade e credulidade, pela inexperiência e sentimento de lealdade dos menores. Não sendo admitida a ofensa ao menor (item c) e, muito menos, a possibilidade de inferiorizá-lo caso ele não consuma o produto oferecido (item d).


Caso o público-alvo (“target”) seja o jovem, os profissionais da área procuram se assenhorear do universo simbólico da juventude para forjar um processo de identificação entre o produto e seu consumidor potencial. Considerando que “as repercussões sociais da atividade publicitária reclamam a espontânea adoção de normas éticas”, convém ficarmos atentos aos que ignoram ou fazem pouco caso da legislação do setor.


Vejamos, a propósito, o exemplo recente da propaganda da Coca-cola. Chorão, vocalista da banda Charlie Brown Jr., interrompe um show e humilha um indivíduo por ele não estar com a garrafinha colecionável, destoando dos outros que exibem eufóricos o “precioso objeto”. Na cena seguinte, o rapaz já está portando o “talismã”, e, por isso, recebe o abraço de Chorão, seu ídolo.


Não é casual a citação. Ela é paradigmática de um procedimento renitente das empresas que divulgam marcas, produtos e serviços: estigmatizar os que não se padronizam; marginalizar aqueles que refletem.


Rebeldia e transgressão como marketing não passam de elementos inseridos nos códigos do mercado. Promovem o preconceito, a discriminação, a apatia e o consumo acrítico.


A inconformidade, característica inerente da juventude, é desconteudizada, esvaziada de sentido. Restando a obediência ao “rebelde”, travestido de porta-voz de interesses comerciais evidentes.


O discurso publicitário é preenchido por frases de efeito que sintetizam o que as pesquisas colheram antecipadamente. O jovem ouve à tarde o que as entrevistas coletaram pela manhã de sua boca. Promessas de entrega de desejos embalados, a demagogia é reposta constantemente com a insinuação inscrita na tarja: “nova embalagem”, “lançamento” etc.


Portanto, deve-se evitar “distorções psicológicas nos modelos e impedir a promoção de comportamentos socialmente condenáveis” (item f, do mesmo artigo 37º), como o castigo exemplar contido na referida peça publicitária do refrigerante, na qual o jovem vê tolhida sua espontaneidade para autoritariamente ser enquadrado como o suposto “exclusivo portador” da garrafinha da “felicidade sintética”. E convertido, ao final, ao credo da despersonalização estilizada, escapando do temido sentimento do jovem: ser excluído da sua “tribo”.


Temos a inversão do Zé Ninguém (1948) de Wilhelm Reich. Os verdadeiros Zés Ninguéns são transformados em seres notáveis, e o sujeito que procura preservar alguma autenticidade é catapultado para a estupidez. Para massagear o ego de seus consumidores, a publicidade banaliza e opera cirurgias mentais de um admirável mundo novo.



Um comentário:

  1. Uma exelente forma de exemplificar a real propaganta que é consumida por trás do Código de Ética.

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