sábado, 20 de novembro de 2010

Não sonho mais - Chico Buarque




Não sonho mais - Chico Buarque








Não Sonho Mais

Chico Buarque


Hoje eu sonhei contigo,

Tanta desdita! Amor, nem te digo

Tanto castigo que eu tava aflita de te contar.


Foi um sonho medonho

Desses que, às vezes, a gente sonha

E baba na fronha e se urina toda e quer sufocar.


Meu amor, vi chegando

Um trêm de candango

Formando um bando,

Mas que era um bando

De orangotango pra te pegar.


Vinha nego humilhado,

Vinha morto-vivo, vinha flagelado.

De tudo que é lado

Vinha um bom motivo pra te esfolar.


Quanto mais tu corria

Mais tu ficava, mais atolava,

Mais te sujava. Amor, tu fedia,

Empesteava o ar.


Tu que foi tão valente

Chorou pra gente. Pediu piedade

E, olha que maldade,

Me deu vontade de gargalhar.


Ao pé da ribanceira acabou-se a liça

E escarrei-te inteira a tua carniça

E tinha justiça nesse escarrar.


Te "rasgamo" a carcaça

Descendo a ripa. "Viramo" as tripas,

Comendo os "ovo", ai!,

E aquele povo pôs-se a cantar.


Foi um sonho medonho,

Desses que, às vezes,

A gente sonha e baba na fronha

E se urina toda e já não tem paz.


Pois eu sonhei contigo e caí da cama.

Ai, amor, não briga! Ai, não me castiga!

Ai, diz que me ama e eu não sonho mais!




Nenhum comentário:

Postar um comentário