sábado, 28 de agosto de 2010

Esfera pública x esfera mercantil



Esfera pública x esfera mercantil - Emir Sader

O neoliberalismo é a realização máxima do capitalismo: transformar tudo em mercadoria. Foi assim que o capitalismo nasceu: transformando a força de trabalho (com o fim da escravidão) e as terras em mercadorias. Sua história foi a crescente mercantilização do mundo.

A crise de 1929 - de que o liberalismo foi unanimemente considerado o responsável - gerou contratendências, todas antineoliberais: o fascismo (com forte capitalismo de Estado), o modelo soviético (com eliminação da propriedade privada dos meios de produção) e o keynesianismo (com o Estado assumindo responsabilidades fundamentais na economia e nos direitos sociais).

O capitalismo viveu seu ciclo longo mais importante do segundo pós-guerra até os anos 70. Quando foi menos liberal, foi menos injusto. Vários países – europeus, mas também a Argentina – tiveram pleno emprego, os direitos sociais foram gradualmente estendidos no que se convencionou chamar de Estado de bem-estar-social.

Esgotado esse ciclo, o diagnóstico neoliberal triunfou, voltando de longo refluxo: dizia que o que tinha levado a economia à recessão era a excessiva regulamentação. O neoliberalismo se propôs a desregulamentar, isto é, a deixar circular livremente o capital. Privatizações, abertura de mercados, “flexibilização laboral” – tudo se resume a desregulamentações.

Promoveu-se o maior processo de mercantilização que a história conheceu. Zonas do mundo não atingidas ainda pela economia de mercado (como o ex-campo socialista e a China) e objetos de que ainda usávamos como exemplos de coisas com valor de uso e sem valor de troca (como a água, agora tornada mercadoria) – foram incorporadas à economia de mercado.

A hegemonia neoliberal se traduziu, no campo teórico, na imposição da polarização estatal/privado como o eixo das alternativas. Como se sabe, quem parte e reparte fica com a melhor parte – privado – e esconde o que lhe interessa abolir – a esfera pública. Porque o eixo real que preside o período neoliberal se articula em torno de outro eixo: esfera pública/esfera mercantil.

Porque a esfera do neoliberalismo não é a privada. A esfera privada é a esfera da vida individual, da família, das opções de cada um – clube de futebol, música, religião, casa, família, etc.. Quando se privatiza uma empresa, não se colocam as ações nas mãos dos indivíduos – os trabalhadores da empresa, por exemplo -, se jogam no mercado, para quem possa comprar. Se mercantiliza o que era um patrimônio público.

O ideal neoliberal é construir uma sociedade em que tudo se vende, tudo se compra, tudo sem preço. Ao estilo shopping center. Ou do modo de vida norteamericano, em que a ambição de todos seria ascender como consumidor, competindo no mercado, uns contra os outros.

O neoliberalismo mercantilizou e concentrou renda, excluiu de direitos a milhões de pessoas – a começar os trabalhadores, a maioria dos quais deixou de ter carteira de trabalho, de ser cidadão, sujeito de direitos -, promoveu a educação privada em detrimento da publica, a saúde privada em detrimento da pública, a imprensa privada em detrimento da pública.

O próprio Estado se deixou mercantilizar. Passou a arrecadar para, prioritariamente, pagar suas dívidas, transferindo recursos do setor produtivo ao especulativo. O capital especulativo, com a desregulamentação, passou a ser o hegemônico na sociedade. Sem regras, o capital – que não é feito para produzir, mas para acumular – se transferiu maciçamente do setor produtivo ao financeiro, sob a forma especulativa, isto é, não para financiar a produção, a pesquisa, o consumo, mas para viver de vender e comprar papéis – de Estados endividados ou de grandes empresas -, sem produzir nem bens, nem empregos. É o pior tipo de capital. O próprio Estado se financeirizou.

O neoliberalismo destruiu as funções sociais do Estado e depois nos jogou como alternativa ao mercado: se quiserem, defendam o Estado que eu destruí, tornando-o indefensável; ou venham somar-se à esfera privada, na verdade o mercado disfarçado.

Mas se a esfera neoliberal é a esfera mercantil, a esfera alternativa não é a estatal. Porque há Estados privatizados, isto é, mercantilizados, financeirizados; e há Estados centrados na esfera pública. A esfera pública é centrada na universalização dos direitos. Democratizar, diante da obra neoliberal, é desmercantilizar, colocar na esfera dos direitos o que o neoliberalismo colocou na esfera do mercado. Uma sociedade democrática, posneoliberal, é uma sociedade fundada nos direitos, na igualdade dos cidadãos. Um cidadão é sujeito de direitos. O mercado não reconhece direitos, só poder de comprar, é composta por consumidores.

Na esfera da informação, houve até aqui predomínio absoluto da esfera mercantil. Para emitir noticias era necessário dispor de recursos suficientes para instalar condições de ter um jornal, um rádio, uma TV. A internet abriu espaços inéditos para a democratização da informação.

A democratização da mídia, isto é, sua desmercantilização, a afirmação do direito a expressar e receber informações pluralistas, tem que combinar diferentes formas de expressão e de mídia. A velha mídia é uma mídia mercantil, composta de empresas financiadas pela publicidade, hoje aderida ao pensamento único. Uma mídia composta por empresas dirigidas por oligarquias familiares, sem democracia nem sequer nas redações e nas pautas dos meios que a compõem.

A nova mídia, por sua vez, é uma mídia barata nos seus custos, pluralista, crítica. O novo espaço criado pelos blogueiros progressistas faz parte da esfera pública, promove os direitos de todos, a democracia econômica, política, social e cultural. A esfera pública tem expressões estatais, não- estatais, comunitárias. Todas comprometidas com os direitos de todos e não com a seletividade e a exclusão mercantil.

São definições a ser discutidas, precisadas, de forma democrática, aberta, pluralista, de um fenômeno novo, que prenuncia uma sociedade justa, solidária, soberana. A possibilidade com que estão comprometidos Dilma e Lula de uma Constituinte autônoma permite que se possa discutir e levar adiante processos de democratização do Estado, de sua reforma em torno das distintas formas de esfera pública, desmercantilizando e desfinanceirizando o Estado brasileiro.



18 comentários:

  1. E melhor é pensarmos em como o sistema neoliberal sairá dessa crise que está a adentrar.

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  2. ao se estudar esse texo percebe-se as diversas contradições e crises do sistema capitalista, entretanto estas crises são como molas que impulsionam cada vez mais o crescimento deste sistema... Mas será que o neoliberalismo terá a mesma função para o capitalismo?

    Willian.S.F 4na História

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  3. Se trata de uma crítica ferrenha sobre a política Neo-Liberal e suas consequencias, muito bem embasada.
    Traduzindo um pouca para a realidade do Brasil, podemos usar como comparativo o governo adotado pelo PSDB tanto em São Paulo, quanto no Brasil, onde "vendeu" alguns dos nossos maiores bens por uma minharia. Hoje algum tempo após à essas práticas, vemos um crescimento constante nessas empresas agora privadas.
    Pergunto, será que o governo se julgava incapaz de produzir tal crescimento? Caso consiga o poder novamente, quanto tempo levaria para entregar a Petrobrás (maior empresa da américa latrina) para algum grupo financeiro? O que consta é uma declaração do canditado MotoSerra afirmando que "o petróleo não pertence somente a nós", daí tiramos uma idéia....

    André Schneider
    4ºNA História

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  4. em relação a esfera pública não podemos deixar que ela enverede pelo caminho do neo liberalismo, onde o Estada pretende cada vez menos atender as necessidades do povo.

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  5. O artigo de Sader critica a política Neoliberal, que me fez lembrar do PSDB, que com Fernando Henrique privatizou até as cuecas do povo, com um governo voltado aos grandes empresários internacionais e a elite!!!!
    Agora esse mesmo partido tem como candidato o senhor José Serra, o povo já está vacinado de vocês, em São Paulo o senhor, com sua grande política educacional, que faz vergonha, tentou de todos os modos enburrecer nossos jovens com políticas de aprovação automática, venda de bancos estatais,tenha a certeza que terá de fazer algo mais...bem mais... para reverter sua péssima situação nas urnas.
    Apesar da tentativa dos senhores de alienação do nosso povo, através do péssimo ensino da escola pública, mídia e afins não toleraremos mais este sistema de governo, que em oito anos nada somou a nação.

    William Ap. Pereira Torres, 4 Na história.

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  6. Sader nos dá ampla visão dos efeitos nocivos da política neoliberal, defendida principalmente por políticos do PSDB. É importante lembrarmos durante os governos tucanos, nossas maiores riquezas estatais foram entregues a grupos estrangeiros que lucram fortunas imensuráveis. Assim, privatiza-se os lucros, concentrando a renda nas mão de poucos.
    Por outro lado, o estado continua tendo papel importante quando tem cobrir os "rombos" orçamentários, quando estas empresas estão em declínio.
    Esse processo evidencia um estado empenhado em aumentar a lucratividade de pequenos grupos e coletivizar as dívidas quando estes a adquirem.

    Guilhermo Landes, 4ºNA de História

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  7. Os mecanismos que o sistema capitalista desenvolve são elementos que justificam sua natureza.
    Se não há preocupação com o setor público é porque ele se torna dispendioso para um sistema econômico que visa sempre diminuir os custos de produção.
    Poderia se dizer que um maior poder aquisitivo por parte da classe trabalhadora seria vantajoso para as pretensões burguesas, entretanto seria determinativo para ruir as bases do sistema.
    Dar direitos é ceder uma parte da riqueza que a classe dominante não está disposta, ora, um indivíduo preenchido das disposições de sua existência, enquanto ser orgânico e social, é um indivíduo capaz de pensar por si, condição fundamental para libertá-lo dos grilhões que o prendem à subimissão.
    4NA História
    Leandro

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  8. Com o texto podemos perceber criticas em relação ao sistema neoliberal e também algumas contradições em relação ao capitalismo, na qual, por um lado, impulsiona a economia do país e por outro, arrasa com a massa populacional menos favorecida, que por sua vez, não consegue acompanhar esse crescimento global. Com a política Neoliberal, dando grande ênfase a privatização de empresas, podemos perceber como a população acaba muitas vezes "não enxergando" o crescimento do nosso país, uma vez que todo o investimento é encaminhado para as grandes empresas. Partidos como o PSDB costumam agir dessa forma, dando grande parte dos investimentos adquiridos a empresas privatizadas.

    Camila Zaborski - 4NA

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  9. Milhares de pessoas consideram o neoliberalismo um estagio avançado de civilização, assim como os contemporânios de Aristóteles encaravam a escravidão um direito natural e os teólogos medievais consideravam a mulher um ser inferior ao homem.
    Shirley Uzan.
    4NA-História.

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  10. AS MAZELAS DA PRIVATIZAÇÃO

    Em relação ao texto de Emir Sader, ha de se ponderar, toda moeda tem dois lados. Olhando por esse aspécto o neoliberalismo pode até certo ponto agilizar o crescimento de um determinado setor, não significando com isso, que tal crescimento será benéfico a ponto de atingir beneficamente toda população. Trilhando por essa vereda, os benefícios certamente atingirão apenas parte do setor e, não ele como um todo. Somente para ilustrar tomemos como exemplo a privatização da telefônica. Antes da privatização um numero menor de pessoas tinham acesso a ter uma linha telefônica, se por um lado facilitou a obtenção da linha, o preço de uma ligação disparou, o custo de uma simples ligação atualmente está infinitamente muito mais cara que outrora.
    Portanto de que adianta incrementar o crescimento de um setor, se ao ser implatado o acesso será restrito apenas paras as classes privilegiadas, ampliando ainda mais a disparidade entre as classes. O neoliberalismo é benéfico a uma pequena parcela da populãção em detrimento de muito prejuízo para a grande maioria que não puder arcar com as custas desse progresso.De que adianta a medicina brasileira estar num patamar elevado para atender a elite, quando a maioria do povo morre por falta de socorro deitado no chão de um corredor de hospital.

    BORTOLO

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  11. O neo-liberalismo é o sistema político que reduz o Estado á mínimo, devido a abertura passiva de um governo frágil que permiti a intervenção quase gratuita na administração de políticas econômicas, publicas e conseqüentemente sociais . Decorre de uma partipação conjunta entre Estado e neoliberais, que gera maior gerência dos neoliberais com o advento do lucro provocando estagnação econômica interna e externa, restrinção nas relações com novos mercados, desfavorece a balança comercial ao importar com contundência a custo alto produtos que muitos vezes não somos desprovidos de possuir naturalmente.No entanto, para salvaguardar tal caos econômico na posteridade, os neoliberais privatizam domínios públicos proliferando a desigualdade social a estágios deploravéis, por conta da mercantilização de todo bem útil para o povo. Só uma maior parcipação popular nas esferas públicas coibirão o amplo avanço deste sistema segregador e anti humano da nossa sociedade. É conscientizar a população e se instruir melhor, rompendo o que a publicidade nos oferece, resgatanto a raíz cultural que nossa História construiu.

    Vanicleiton 4NA história

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  12. Não é dificil de entender que esse neoliberalismo que foi implantado pelo sr então F H C nos faz refletir através do texto do Emir Sader que sofremos até hoje com a má distribuição de renda que cresceu muito nas décadas atrás.
    Conto com o descontentamento de muitos para que não os deixe voltaroo em cena as mazelas do P S D B em nenhum dos setores governamentais que nos possa vir a pagar com O TEMPO o nos fez sentir o peso e a falta de crescermos com cidadão, pense no que pode e vai ser melhor. (Valmir)

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  13. NEOLIBERALISMO

    O neoliberalismo radicaliza a exploração e entrega os recursos do estado para empresas privadas. Com a internet o conhecimento virtual se multiplica gerando um equilíbrio de força em relação á informação tradicional

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  14. O Predominio no campo político econômico dos pressupostos do neoliberalismo, que retoma os principios básicos do liberalismo clássicos, adaptando-os a uma determinada realidade na qual se observa a redução do papel do Estado, seja como regulador ou mesmo como gestor das atividades econômicas. O neoliberalismo só favorece a classe burguesa , e a política de privatização das empresas.
    Cícera Vacari 4º NA HISTÓRIA

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  15. Posneoliberal, essa ideia é quase uma utopia pois para dignificar a pessoa resguardando-lhe os direitos teria que se desfazer o neoliberalismo que tudo devora, tudo destroi, tudo transforma em coisa, objeto com valor monetário. Essa realidade deve ser mudada porém não sem uma intervenção objetiva do estado. Este embate será um grande desafio pois estará em lados opostos o lucro de poucos contra os direitos de muitos.

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  16. o neoliberalismo facilita a exploração que coexiste há muito tempo em nossa esfera política e econômica. Trazida por um governo de direita que por sua vez não parece visar o bem estar da população,essa junção de neoliberalismo com um capitalismo de exclusão favorece as emperesas privadas e abandona cada vez mais os necessitados em nosso país.
    Isso faz com que empresas privadas ganhem cada vez mais mercado e que um surto de privatizações sem fim tomem conta de nosso Brasil, degradando o nível e qualidade dos empregos e a nossa política interna.
    "estamos entregando nosso país, nossas riquezas e nosso povo aos burgueses e ao mercado estrangeiro"....
    Beatriz Souza
    4ºNA História

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  17. Os valores mudam de acordo com o tempo histórico, porem neste periodo contemporaneo, traduzimos os valores em materia, posse, acumulo, capital...
    O estado foi traduzido pelo neoliberalismo ao uma ação minima e quando age é em detrimento do povo e a favor dos grandes grupos empresariais...
    A internet se torna uma importante ferramente de reinvidicação do poder de fala, instrumento este que bem utilizado pode ser utilizado em uma tentativa de resgatar valores que cairam em desuso com o avanço das politica neo-liberais.

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  18. O texto acima de Emir sader nos mostra uma critica de forma ampla na culminação das decisões dos assuntos públicos, visto que ele enfatiza na privatização (neo-liberalismo) iniciado pelo governo de FHC que só veio prejudicar a população brasileira.
    Vimos também a analogia com o capitalismo que na teoria "favorece a sociedade em um todo" na prática " expandi poderes da classe burguesa".

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